domingo, 25 de outubro de 2026

AS RUAS DO IAPI REALENGO - por Gilberto Rodrigues Pimentel


AS RUAS DO IAPI-REALENGO - Alpha et Ômega 


Gilberto Rodrigues Pimentel

foto aerea da FAB - colorizada por IA

O Realengo no início da década de 40 era um lugar desprovido de recursos, distante de tudo, com clima
hostil, onde prevaleciam temperaturas bastante elevadas, ainda que as noites de inverno pudessem ser amenas e até frias, o que muitos atribuíam a sua situação geográfica, espremido entre o Maciço da Pedra Branca e a Serra do Mendanha. Isolado também, pois somente a existência da Estrada de Ferro Central do Brasil, que dividia o bairro em duas partes bem distintas, garantia uma ligação mais segura e rápida com o centro da cidade. 


(nesta foto de 1934, antes das casas e do   IAPI, )


frente da Escola Militar - foto colorizada IA

Na parte sul desse caminho de ferro, há muito tempo urbanizado, estava a área nobre do bairro valorizada pela presença de importantes organizações militares. Uma delas a Fábrica de Cartuchos do Realengo, principal suporte econômico da região, que ali se encontrava desde o início do século anterior. Havia também a Escola Militar do Realengo, ninho dos futuros oficiais do Exército que funcionou até 1944, quando foi transferida para a cidade de Resende. Época de conflitos mundiais, essa guarnição estratégica da Força Terrestre sempre foi alvo de permanente preocupação para os governantes, em boa parte pelo envolvimento dos integrantes da Escola nos mais graves episódios políticos, destaque para a Revolta de 1922, ou dos Tenentes, que eclodiu nas instalações do Forte de Copacabana. No lado norte do velho subúrbio, quando lá chegamos, começo da década de 40, estava em curso a fundação de um imenso conjunto habitacional, iniciativa do governo Vargas, de caráter social relevante e cujo objetivo maior, porém não único, era o de facilitar a aquisição da casa própria ao sofrido operariado carioca, até então disperso de forma caótica em guetos e morros da cidade, já constituindo risco à segurança do núcleo de poder. Lembremos que o Rio de Janeiro era então a capital do país. Surgia o IAPI, Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários do Realengo. Desde época bastante remota, aquela vasta extensão de terras era um imenso vazio humano, onde a única atividade econômica consistia na criação extensiva de gado bovino para abastecer o comércio de outras áreas. Mas ali também estava localizada a principal área de treinamento das tropas – o Campo do Gericinó – cujos limites se estendiam até as fraldas do Mendanha, valorizando as características de poderosa praça de guerra do Realengo. Lembro-me bem dos gigantescos exercícios de campanha ali realizados diante da possibilidade da participação brasileira, logo depois concretizada, no conflito geral que acontecia no teatro europeu. Ainda guardo na retina as imagens das colunas de Infantaria e da Cavalaria Montada desfilando pelas nossas ruas na direção do campo e do cenário arrebatador das noites que se tornavam dias, efeito das granadas iluminativas lançadas pelos canhões da Artilharia de Campanha. Enquanto isso, também como parte dos preparativos para a guerra, já uma realidade bem visível, no limite leste do recém-nascido IAPI, tinha início a construção de mais um estabelecimento militar, a Escola de Instrução Especializada, com o objetivo específico de capacitar nossos oficiais e sargentos para o combate moderno daqueles tempos. Lá está, ainda hoje, a consagrada EsIE. Esse pequeno resumo serve agora de suporte para que eu possa falar das ruas do IAPI. Logo entenderão o porquê. Lembro que desde criança, e falo dos anos quarenta e cinquenta, despertavam curiosidade aqueles nomes pomposos, estranhos e desconhecidos, que nominavam os logradouros e que nossos pais, e também as professorinhas das escolas públicas, quando questionados, não sabiam explicar a origem: Marechal Falcão da Frota, Marechal Marciano, Marechal Modestino, Marechal Joaquim Ignácio, Marechal Bibiano Costalat, Marechal Barbedo, Marechal Agrícola, Marechal Xavier Câmara, Marechal Antônio Faustino e Marechal Abreu Lima, os mais conhecidos, mas muitos outros mais. De onde vieram tantos MARECHAIS??? Quantas vezes me perguntei!!! 

         



Aliás, nossas ruas eram um dos orgulhos do lugar. Umas bem extensas, outras mais curtas, todas muito bem traçadas e que se transformaram em verdadeiras células vivas com grupos constituídos, quase um condomínio, cada qual com hábitos e costumes próprios sedimentados no curso dos anos. Nas ruas mais longas como a Falcão da Frota, onde eu morava, e a Marciano, que se estendiam por mais de um quilômetro, do nosso bairro até o início do vizinho, a vida acontecia nos limites de pequenas quadras, divisões que surgiam de forma natural e ao gosto dos moradores. Nesses espaços todos se conheciam bem e conviviam em plena harmonia, logo despontando os líderes espontâneos. As práticas ali desenvolvidas se tornavam quase típicas do pedaço. Os esportes, os folguedos das crianças, as datas festivas, a confraternização dos pais, tudo adquiria ar próprio daqueles agrupamentos. Em ruas mais curtas como a Bibiano Costalat, as pessoas chegaram a formar verdadeira família e foi exemplo de união e de amizade que por muito tempo refletiu em todo o Conjunto. A posição privilegiada ao lado da Pracinha do bairro e do Coletivo, mas também pelo coincidente gosto dos pais e das crianças pela prática esportiva, futebol sobretudo, tornaram a Bibiano uma referência do bairro. 

Darcy  Silveira o Canario -
 capa da revista do Real Madrid 
CANÁRIO  NO REAL MADRID

Não foi apenas acaso surgir ali o excepcional Canário, atleta que viria a brilhar durante anos no histórico ataque do Real Madri – Canário, Del Sol, Di Stefano, Puskas e Gento. Um orgulho sem tamanho para os realenguenses. Não há como esquecer também a Marechal Modestino, a mais conhecida rua do conjunto pela presença, nela, de um trecho, não mais de 200 metros, carinhosamente conhecido por nós como Coletivo, onde aconteciam todas as principais manifestações da população local. 


Lugar carismático, frequentado pela massa dos moradores, tinha o poder de reuni-los nos domingos e dias festivos, máxime o famoso Carnaval do bairro. Guarnecido por dois bonitos prédios de três andares, ocupados por felizes moradores, abrigava no seu térreo várias lojas comerciais e alguns órgãos da administração do Conjunto. Foi quando ingressei na vida militar, nos idos de 1957, que comecei a entender o significado dos nomes de nossas ruas. Aqueles homens, na verdade, não chegaram a ser marechais no serviço ativo. Tratava-se de homenagear, na inatividade, figuras ilustres do Exército como reconhecimento pela participação em variados episódios históricos ocorridos no final do século do XIX ou início do século XX – a Guerra da Tríplice Aliança, a Proclamação da República e a sua consolidação, por exemplo. Mas ainda me seria dada a oportunidade de conhecer de forma mais completa todo o alcance daquela distinção que tanto me intrigava quando criança. Os caminhos da vida me levaram um dia, após o término do serviço ativo, a fazer parte da diretoria do Clube Militar, onde permaneci por seguidos quatorze anos e pude destinar boa parte do tempo pesquisando os arquivos da sua instigante história, as origens, a fundação e a sua trajetória ao longo dos seus mais de 130 anos.

Getúlio gostava do Clube bem como admirava também as Forças Armadas a qual integrara na juventude


    
Logo ficou clara a intensa ligação que Getúlio Vargas, o idealizador do IAPI, manteve com o Clube desde que se tornou ditador em 1930 e até 1954, ano do seu suicídio, já restabelecido o regime democrático. Getúlio fora militar na juventude, contemporâneo de vários dos chefes militares em atividade e embora os episódios conturbados que caracterizaram seu relacionamento com as Forças Armadas, fruto de seus jogos e ambições políticas, jamais se afastou do Clube que prestigiou e frequentava com certa regularidade, inclusive para assuntos pessoais. Não era raro, principalmente durante a fase do governo autoritário, encontrá-lo na sede da Avenida Rio Branco em busca do alfaiate ou do barbeiro de sua confiança ou simplesmente para almoçar com auxiliares. Getúlio gostava do Clube bem como admirava também as Forças Armadas a qual integrara na juventude. As cerimônias cívico-militares jamais se repetiram com o mesmo brilho em outro governo. Os momentos mais marcantes de Getúlio, porém, se deram nos nossos Salões, quando participou de algumas das históricas assembléias que antecederam a criação da Petrobrás e debater a exploração dos campos de petróleo já conhecidos. Uns defendiam o Monopólio, outros eram contrários. As discussões acirradas envolveram a diretoria do Clube, seus associados e deixaram sequelas. No final de tudo pude constatar com imenso gosto que todos aqueles homens que tiveram seus nomes gravados nas ruas do Realengo foram, um dia, ligados ao Clube Militar. Eles viveram a época da criação da entidade, o que se deu logo após o término da Guerra da Tríplice Aliança; testemunharam e até participaram do movimento que derrubou a monarquia, da Proclamação da República e da sua consolidação, já nos primeiros anos do século XX. E mais, todos sem exceção passaram pelos quadros dirigentes do Clube Militar, seja como seus fundadores, diretores, conselheiros e alguns deles até mesmo como seus presidentes. Ainda haveria muitos outros marechais não contemplados para designar as ruas do nosso bairro, como os próprios Deodoro da Fonseca e Hermes da Fonseca, que presidiram nosso Clube e também a nova República do Brasil. Ao lado da distinção ficou em mim a certeza que Getúlio Vargas foi responsável pela designação das ruas do IAPI do Realengo fruto da sua profunda admiração pelo Exército e pelo Clube Militar que tanto prestigiou. Pena que tudo aquilo terminasse. “Alpha et Omega”

O autor Gilberto Rodrigues Pimentel
 é Gen Div Veterano  (AMAN-1962)
e foi Presidente do Clube Militar.
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Esta reprodução foi autorizada pelo autor Gilberto Rodrigues Pimentel


Publicada originalmente na Revista do Clube Militar . Edição 492 jan-fev 2024

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nota do blog. O jogador Darcy Silveira ^O Canário^ também jogou na Seleção Brasileira no ano de 1956.