terça-feira, 4 de junho de 2013

Villa-Lobos quem diria, já deu aula em Realengo.

Hoje falaremos de outra historia que minha mãe me contava quando ainda era criança: Heitor Villa-Lobos deu aula de musica em Realengo.
Ela contava que ele periodicamente aparecia na Escola Nicarágua onde ela estudava, e reunia os alunos no pátio e ensinava como cantar em corais (canto orfeônico).
E comprovadamente anos mais tarde encontrei este monografia premiada da pesquisadora Ermelinda A. Paz - Heitor Villa-Lobos - O Educador

Pro Realengo: Essas aulas foram realizadas em diversas escolas de nossa região na década de 40, com a intenção de formar um grande coral para se apresentar no Campo do Vasco da Gama e também em Laranjeiras o do Fluminense. Mapas reproduzidos neste estudo feito pela Prof.ª. Ermelinda comprovam com detalhes que as escolas municipais de todo o Rio de Janeiro, participaram destes corais. E Realengo contribuiu com 410 crianças da Escola Nicarágua e Rosa da Fonseca (Vila Militar) cedeu 200 alunos, Getúlio Vargas (Bangu) com 260 alunos, entre outras.
Tudo muito bem organizado com ônibus com local e hora marcados e lanche para todos. 

 Sobre a apresentação.

Foi também em São Januário que ocorreram os corais do maestro Heitor Villa-Lobos, que em 1940 reuniu 40.000 estudantes das escolas do Distrito Federal num coral de canto orfeônico. Naquele mesmo ano, o estádio serviu como palco do comício de 1o. de maio que o presidente Getúlio Vargas anunciou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), as primeiras leis trabalhistas do Brasil. Getúlio usaria durante toda a década de 1940 São Januário como palco de seus discursos.
As demonstrações tinham lugar, geralmente, nos dias da Independência, da Bandeira, Pan-americano, da Musica etc.

D. Mindinha (esposa de Villa), em depoimento gravado no Museu da Imagem e do Som, informa: Villa-Lobos , quando organizava estas demonstrações, era um verdadeiro engenheiro. Ia para o campo e media tudo e organizava tudo, como se fosse um mapa. Regia de paletó e pijama russo, para chamar a atenção. A infraestrutura do SEMA era completa.
Do Mapa Geral das Circunscrições constavam indicações detalhadas feitas pelos professores especializados, como número de alunos, classificação das vozes e repertorio por escolas, de modo a possibilitar uma concentração, em pouco tempo, sem prejuízo do trabalho letivo de rotina.

Na mesma reportagem, lemos a opinião do musicólogo e professor José Maria Neves: "Villa-Lobos tirou proveito de sua relação com Vargas, mas também foi usado pelo Estado Novo, por causa de sua capacidade de organizar concentrações orfeônicas, que serviam aos objetivos do populismo".
Sobre o assunto, também a opinião de Mozart de Araújo, conhecido musicólogo: "Getúlio se utilizou do gênio, do temperamento de Villa-Lobos para reforçar sua ideia de populismo, educando o Brasil pela música".
"A finalidade de Villa-Lobos era interessar o governo em prestigiar a educação musical nas escolas. Ele se preocupava com a educação do povo. Não queria formar músico e sim público." É a informação de D. Mindinha Villa-Lobos, em depoimento prestado no MIS.
"Villa-Lobos era apolítico: sua única política era o progresso da música e da educação musical", disse o musicólogo Luís Heitor Correia de Azevedo. Ainda em depoimento prestado ao Museu da Imagem e do Som, afirma D. Mindinha: "Infelizmente essa faceta de seu talento não foi compreendida. Os seus contemporâneos não entenderam que, ao realizar aquelas concentrações escolares, ele queria despertar na criança o interesse pela nossa música popular e pelas artes. Para realizar esse trabalho, ele deixou ao final de sua vida, de se dedicar mais às suas composições. Villa queria alfabetizar musicalmente as crianças, ensinar preceitos de educação, despertando a responsabilidade de cada uma. Pode ter sido tachado de fascista ou comunista, mas esse era o pensamento dele".
O gigantismo era a tônica dessas demonstrações orfeônicas. D. Mindinha declarou, também, em seu depoimento gravado no MIS (Museu da Imagem de do Som), que algumas chegaram a reunir 42 mil crianças.
No jornal O Globo, encontramos a seguinte observação: “A grandiosidade de uma festa de educação cívica, de arte e fé”. No campo do Fluminense vibrou a alma nacional em expressões inéditas. Além da regência tríplice (a mais suave e doce regência da História do Brasil) dos maestros Francisco Braga, Joanídia Sodré e Chiafiteli, as mãos dominadoras e os olhos hipnóticos de Villa-Lobos, o grande educador brasileiro.
Estiveram presentes o Sr. e Sra. Getúlio Vargas, Cardeal D. Sebastião Leme, professor Anísio Teixeira, Ministro da Marinha, secretários dos demais ministérios, Dr. Amaral Peixoto, representando o interventor Pedro Ernesto, e figuras de grande representação social.”.

Depoimento do professor e escritor Guilherme Figueiredo. (irmão do ex-presidente do Brasil João Batista Figueiredo)

O meu primeiro contato com Villa-Lobos foi quando eu me formei em direito e resolvemos cantar bem certinho o Hino Nacional”.
Nós éramos trezentos e tantos bacharelandos. Então, pedimos ao maestro Villa-Lobos que viesse ensinar a gente. Ele veio um homem enérgico, furioso, cheio de gestos. Exigente, queria a pronúncia exata, o som exato. Dividiu aquela gente toda em barítonos, sopranos, baixos, contraltos e tal, mas saiu bonito, saiu muito bonito, realmente.
Mas eu tinha dele certa implicância, por causa do que fez no estádio do Fluminense, grande manifestação onde reuniu milhares de alunos para cantarem no coral. Não é que eu não gostasse disso, não gostava da homenagem que ele estava prestando a Getúlio Vargas, que tinha acabado de se tornar Presidente da República, ditador. Eu fiquei com muita raiva dele. Hoje compreendo que Villa-Lobos, para perseguir o que queria, aproximava-se de qualquer governo, de quaisquer pessoas e pouco se importava com a atitude de cada um ou com o pensamento e a ideologia. Porque ele tinha uma ideologia própria que não era uma ideologia política. Era uma ideologia, vamos dizer assim, sentimental. Ele era um nacionalista sentimental e um homem convencido de que o Brasil inteiro precisava aprender a cantar.
Achava que a criança devia começar a aprender a cantar desde que começasse a balbuciar as primeiras sílabas. E para que isso acontecesse, era preciso que a mãe soubesse cantar. E depois, quando a criança fosse para a escola maternal ou para a escola pública, encontrasse professores que soubessem ensinar a cantar. E esta foi a principal razão pela qual ele fundou o Orfeão e, depois, o Conservatório de Canto Orfeônico, isto é, para treinar professores que soubessem ensinar canto, música de canto, os princípios da música, a artinha, a harmonia, o solfejo, a música em conjunto. E foi isto que ele fez durante muito tempo. Hoje eu acho que todos os governos que não apoiaram Villa-Lobos cometeram um grave crime contra o país. Nós mesmos não sabemos cantar porque somos de tradição católica jesuítica, tradição pela qual o padre é que canta e os fiéis apenas respondem. E além do mais, o canto até a pouco era em latim, coisa pouco permeável para a maioria dos fiéis que aprendiam aquelas letras sem conhecer o que estavam dizendo. Villa-Lobos queria que todo mundo cantasse coisas em português, cantigas de roda, cantigas de brinquedo, cantigas de cordialidade, cantigas de adeus; ele tem em sua obra uma série de músicas que são para canto, para canto em conjunto. De tudo isso que Villa-Lobos pretendeu fazer, ficou muito pouca coisa. Ficaram alguns professores excelentes, fiéis à obra dele, ficaram alguns cantores, que cantam bem porque ele insistiu nisso. Ficaram alguns poucos conjuntos, como, por exemplo, o de Cleofe Person de Mattos, mas são muito poucos.


Sobre a autora: ERMELINDA AZEVEDO PAZ ZANINI. Professora Titular de Percepção Musical da UFRJ e Professora Adjunto IV de Percepção Musical da Uni-Rio. Livre-Docente em Percepção Musical pela Uni-Rio. Membro Titular da Academia Nacional de Música. Ocupou por concurso a vaga de Professor de Educação Artística - Música - do Município do Rio de Janeiro, sendo lotada na Escola Guatemala, primeiro Centro Experimental do INEP no Rio de Janeiro. Professora convidada de Percepção Musical em Encontros, Congressos, Seminários e Cursos de Férias. Realizou diversos cursos de pós-graduação na Uni-Rio, na UFRJ e na Universidade Nacional de Rosário (Argentina), como bolsista da OEA, MBA em Planejamento e Gestão Estratégica pela Fundação Getúlio Vargas em 2005 e Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia da Escola Superior de Guerra em 2005.
Obteve bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq, na categoria IIc, de fevereiro de 1993 a março de 1995, na categoria IIb de março de 1999 a fevereiro de 2001 e na categoria IIa de agosto de 2001 a julho de 2003. Lider de pesquisa do grupo Música e Educação Brasileira/UFRJ.
Filiada à Sociedade Brasileira de Musicologia, Associação Brasileira de Educadores Musicais e Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música.
Além da participação em congressos, encontros, seminários e cursos de férias, como conferencista, comunicante e/ou professora, desenvolve intensa e profícua atividade de pesquisa em música, tendo sido laureada nos concursos de monografias:



Agradeceço a minha mãe Zilda Bastos Fortes, pela belas histórias que me contou. Luiz Fortes

terça-feira, 8 de maio de 2012

Lilico criador do bordão: Alô, Alô Realengo: Aquele abraço!


"Tempo bom não volta mais..."
Olívio Henrique Fortes

Lilico
(Rio de Janeiro em 08/10/1937 - Cabo Frio em 23/09/1998).

Nascido Olívio Henrique Fortes, Lilico foi um garoto pobre que vendia balas nos programas de auditório da Rádio Nacional e tornou-se humorista por acaso. Um dia no final dos anos 50, como não havia calouros suficientes para o programa “Trem da Alegria”, apresentado por Lamartine Babo, Lilico se candidatou e improvisou cantando um samba de Jorge Veiga. Foi um sucesso e começou aí sua carreira. Depois de várias participações em programas de rádio, ele foi convidado pelo criador do Teatro de Bolso, Geisa Bôscoli, para estrelar uma comédia teatral. O prêmio: um refrigerante e uma cocada. 

    
O homen do Bumbo "A praça é nossa".
Programa Balança Mais não Cai.
A partir daí, Lilico fez vários espetáculos cômicos e chegou à TV em 1968 no programa “Balança Mas Não Cai”. Participou, também, do programa comandado por Célia Biar na TV Globo, “Oh, Que Delícia de Show” que, depois, passou a se chamar “Alô Brasil, Aquele Abraço”, usando o bordão criado por Lilico e depois usado por Gilberto Gil na sua popular canção.

   
O Lilico. Conhecido como "O homem do bumbo", transformou seus bordões em sucesso nacional. “São dele as expressões ,“Alô, Alô, Realengo! Aquele abraço” , “Tempo bom não volta mais” e “É bonito isso!”. Suas gags renderam-lhe muito mais do que a fama como comediante. Nos anos 70, durante a ditadura militar, foi convocado a prestar esclarecimentos na Polícia Federal por causa da frase "Tempo bom não volta mais" — pensava-se que talvez fosse uma referência ao período democrático pré-1964. Mais tarde, brigou Justiça os direitos autorais sobre a expressão "Aquele abraço", título de uma música de Gilberto Gil.  Em quarenta anos de carreira, Lilico passou pela TV Excelsior, Globo e SBT. (até pouco tempo antes de sua morte no programa “A praça é Nossa”.
Com seu bumbo ele contava piadas e filosofava.

Lilico morreu de problemas cardíacos, aos 61 anos.
 
Fontes: http://veja.abril.com.br/300998/p_037.html

Nt. Fonte caseira: Cresci ouvindo minha mãe (Zilda Bastos Fortes) falar de Lilico, e sempre que aparecia na televisão, mencionava que conheceu ele ainda criança aqui em Realengo, atuando no teatro da casa paroquial do Padre Miguel. (coincidentemente compartilhamos o mesmo sobrenome, sem ligações sanguíneas.)  
 E vejam que coisa sensacional. Então o bordão “Alô , alô Realengo: Aquele Abraço! foi criado por um filho da terra, ganhou o Brasil através da TV e eterniza-se através da canção do baiano Gilberto Gil. Podemos dizer em alto e bom som que ALÔ, ALÔ REALENGO É COISA NOSSA.
E eu Luiz Fortes (criador do Pró-Realengo) fico ainda mais feliz pois além da homenagem do Gil sabemos agora que perpetuamos em nossa logomarca (um abraço simbólico ao bairro por moradores.) também umamarca criada por um Realenguense.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Tocando a campainha, na casa de Hermeto Pascoal

Tocando a campainha, na casa de Hermeto Pascoal.
             por Jovino

Era um domingo ensolarado em novembro de 1977. Eu e meu amigo de infância Jacinto olhamos para o portão fechado à nossa frente, ali na Rua Vitor Guisard, no Bairro Jabour, perto de Senador Camará, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Eu perguntei a ele:

— Será que eu toco a campainha? Ele me garantiu que ali mesmo, naquela casa por detrás do muro alto, morava o Hermeto Pascoal. Ele havia chegado de São Paulo há um ano. Sem mais titubear, apertei o botão.
  foto de : Luzia
Grob dos Santos

Eu estava ali por curiosidade pura. Recém-chegado há duas semanas de Montreal, no Canadá, onde eu tinha passado 3 anos estudando biologia e tocando música, eu agora me encontrava de volta ao meu bairro de nascença, Realengo, ali pertinho do Jabour, a caminho de um curso de pós-graduação na Amazônia. Minha curiosidade era grande. Em 1967, aos 13 anos, eu vibrei com Edu Lobo e sua linda composição “Ponteio” que venceu o festival da Record, sem me dar conta que aquela flauta que parecia um pássaro cantando por detrás das vozes era tocada por um albino baixinho sem pescoço, escondido detrás dos outros instrumentos. Eu havia lido uma reportagem da revista O Bondinho de 1972, antes de ir estudar fora, com uma matéria sobre aquela figura exótica e quixotesca mesmo antes de ouvir sua música, o que só veio a acontecer em 1973, no Teatro Fonte da Saudade, na Lagoa. Assisti a outro show do Hermeto no Museu de Arte Moderna do Rio em 1975, enquanto passava férias e mais uma vez, saí de lá maravilhado com o som, mas confuso por não saber colocar o que eu tinha ouvido dentro de nenhuma categoria conhecida. De volta ao Canadá, conheci outras facetas do trabalho do Hermeto nas gravações que ele fez com Airto Moreira e Flora Purim. Por isso, de volta ao Brasil, em 1977, eu me encontrava ali, prestes a tocar a campainha da casa dele, e meio nervoso, sem saber o que lhe dizer.

Juntei a coragem e apertei o botão. Dona Ilza Pascoal, esposa do Hermeto e mãe de seus seis filhos, abriu o portão:

— Pois não… Eu gaguejei:

— O-O-O Hermeto está? Eu sou músico e gostaria de conhecê-lo. Ela me conduziu até a sala, e de repente eu me vi sozinho ali, sentado no sofá, enquanto Hermeto Pascoal, de short e sem camisa, estava tocando num piano elétrico com fones de ouvido, seus olhinhos fechados. Tudo que eu ouvia era o batucar das teclas. Uns 20 minutos se passaram, o que me pareceu uma eternidade. Eu já estava pensando como ia sair de fininho, sem que ele notasse, quando ele abriu os olhos, sorriu e me cumprimentou:

— Tudo bem? Comecei a me apresentar. Tudo o que eu queria era lhe dizer da minha admiração pelo seu trabalho. Falei do grupo com quem eu tinha tocado piano no Canadá, Mélange, e disse que estava ali no Rio de passagem, a caminho de um curso de pós-graduação na Amazônia. Será que o Hermeto conheceria um lugar para se tocar um pouco, onde rolava uma jam session? Eu mostrei a ele uma fita cassette do Mélange, e ele me mostrou uma do novo disco dele, o “Missa dos Escravos”. Tocou a faixa-título, com o som dos porcos e aqueles acordes muito estranhos para mim. Ele então me perguntou:

— Você sabe ler partituras, acordes cifrados? Eu menti:

— Ah, sim, claro…

— Olha, eu tenho um Grupo, e estou querendo tocar mais flauta e saxofone, precisava de um pianista para essa sexta-feira para um show no Morro da Urca, você toparia fazer comigo?
Show no Sesc Pompéia em 18.02.2005.
 Foto: Adriana Elias
   Isso não era bem o que eu esperava, pois eu nunca pensei que ele fosse me convidar para tocar. Eu retruquei que não poderia assumir nenhum compromisso, devido ao meu curso, tinha uma prova para a bolsa de estudos em 2 semanas, etc… Ele disse:

 — Escuta, se você quiser tocar, pode ser sem nenhum compromisso, me avise quando tiver que ir para a escola e fica tudo bem. Ele então puxou uma folha de papel com uns acordes escritos. Lembro claramente do tema, “Campinas”, uma linda balada que ele havia composto há pouco tempo. Ele me pediu para sentar ao piano elétrico e tocar os acordes. E ali mesmo, sem saber formar nem a metade deles, ambos nos certificamos que eu realmente não lia nada. Minha experiência musical incluía umas aulas de piano que eu tive com a Dona Jupyra quando tinha 12 anos, mas desde então, tudo que eu tocava era de ouvido, músicas copiadas do rádio ou de discos, e minhas composições, que eu tocava de cor. Hermeto deu um sorriso matreiro, e disse:

— É, acho que você precisa ensaiar um pouco… pode vir aqui amanhã de tarde? Os meninos do Grupo vêm ensaiar, e você vai aprender com eles. E lá fui eu pra casa, sem saber direito onde tinha amarrado meu burro. Claro que eu não poderia entrar de novo num conjunto musical, tinha outros planos traçados, uma vida dedicada à pesquisa científica dentro da biologia, onde a música figurava apenas como um hobby, uma distração. Eu havia provado de um pouco da vida de músico no Canadá, e não achava que meu caminho era viver dentro dos ambientes enfumaçados dos clubes, tocando para gente que não estava lá para ouvir música. E agora estava dividido, porque dentro de mim, algo queria muito mesmo tocar, aprender e compartilhar aquele som.

Segunda-feira, 14h, lá estava eu de volta ao Jabour. Conheci Itiberê Zwarg, baixista e Peninha, baterista. Hermeto me apresentou a eles e começamos a ensaiar, uma variedade de temas: um baião, um frevo, aquela balada que eu não conseguia tocar. Lá pelo meio da tarde apareceu um percussionista que se chamava Pelé. Ele havia conhecido o Hermeto durante a gravação do disco “Orós” do Fagner, e foi convidado para aparecer no ensaio. Hermeto disse a ele:

— Campeão, esse negócio de ser Pelé não dá, você vai se chamar Pernambuco. Pelé/Pernambuco havia trazido um berimbau e umas tumbadoras, mas o Hermeto, que sempre chamava todos de “Campeão”, disse:

— Olha, vende esses negócios, porque você vai ser um percussionista diferente. Nada de tumbadora ou berimbau, já tem muita gente tocando isso. Amanhã você vai no Mercado de Madureira e arranja uns chocalhos de bode, umas conchas e umas panelas. Vamos criar uns instrumentos novos.

E assim a semana passou, o Grupo ensaiando, tocando o mesmo tema 20, 30 vezes. Eu, meio apressado, achava que estava bom, que poderíamos ensaiar outros temas, ou então improvisar, que era o que eu no fundo queria, mas o Hermeto insistia que ainda tinha muito o que melhorar. No segundo dia de ensaio apareceu o Cacau, saxofonista e flautista que tocava com o Grupo há algum tempo. Eu nunca tinha tocado num grupo assim antes, em que as partes eram definidas e ensaiadas múltiplas vezes, enquanto o Campeão (nós o tratávamos pelo mesmo nome que ele nos tratava) mudava uma nota aqui, uma batida ali, e todos reescreviam suas partes na hora. Muitas vezes apenas a “cozinha” (piano, baixo e bateria) ensaiava o tema inteiro, sem os sopros. Eu, que havia me acostumado a tocar sempre com outros músicos cobrindo meus erros, de repente passei a me sentir muito vulnerável. Nesta nova situação musical, o baterista nunca marcava o tempo; ele tocava de uma forma mais livre, colorindo as frases, o que me deixava meio inseguro, sem entender direito como fazer com todas essas vozes coexistindo. Hermeto assumia o piano e tocava, às vezes improvisando durante 15 ou 20 minutos com a banda, o que me deixava louco de vontade de imitá-lo. Um dia perguntei a ele:

— Você pode me ensinar técnica, exercícios para tocar assim rápido e limpo? Ele sorriu:

— Não, técnica não existe separada da música. Esses temas que vocês estão ensaiando exigem técnica, e por isso temos que repetir muitas vezes, para que a mente e as mãos possam aprender naturalmente. Mas se você quiser estudar apenas a técnica, você vai virar um robô, tocando um monte de escalas e frases feitas de forma automática.

Por fim chegou a tal sexta-feira. O show era na Concha Verde, que era um anfiteatro ao ar livre no alto do Morro da Urca. Para chegar lá era preciso tomar o bondinho do Pão de Açúcar, o cartão postal mais conhecido do Rio de Janeiro. Eu cheguei lá cedo, muito feliz em ver o local apinhado de gente, com pessoas encarapitadas em cima das árvores para ficar mais perto do palco. Eu nunca tinha participado como músico de um evento assim, e estava ansioso para mostrar tudo aquilo que havíamos ensaiado durante a semana. Peguntei ao Hermeto qual seria a primeira música da noite, e ele respondeu:

Jovino & Hermeto at the Blue Note in 1991 (photo by Tim Geaney)
— Não sei, vamos entrar no palco e criar um lance. Eu fiquei confuso:

— Como assim? E os temas que a banda ensaiou esses dias todos?

— Hoje e agora não é uma boa hora para aqueles temas. Vamos tocar outros. E de repente lá estávamos nós no palco, criando levadas, improvisos e solos que nunca tinham acontecido antes. Outros músicos apareceram: Mauro Senise, José Carlos Bigorna, Márcio Montarroyos, de repente havia um naipe de sopros no palco tocando coisas que eu nunca havia ouvido. Numa certa hora Hermeto me manda entrar no palco e fazer um solo de clavinete, um teclado com cordas. E eu perguntei:

— Que tipo de solo você quer que eu faça? Meio soul, funk, rock?

— Nada disso – quebre tudo, toque o que você sentir na hora. Eu fui, sem saber direito o que era “quebrar tudo” e assim que eu comecei a tocar, ele parou a banda inteira e todos saíram do palco, me deixando sozinho com centenas de pessoas ouvindo. Foi ali naquele momento que eu me dei conta que uma transformação estava acontecendo, uma coisa meio misteriosa que eu não conseguia entender, mas que era uma delícia. Claro que ter as pessoas aplaudindo era bom, mas a satisfação maior era a de encontrar naquele momento uma resposta intuitiva em mim para um desafio que envolvia a mente, o corpo e o coração, tudo junto. Toquei sem pensar em frases pré-construídas, de uma forma tal que os espaços entre as notas se tornaram tão ou mais importantes que as notas.

Ao final do concerto, todos estávamos exaustos e felizes, e o Hermeto me perguntou:

— E então, gostou?

— Claro, adorei…

— Bicho, se você quiser, sábado que vem temos um outro show em São Paulo. Quer fazer? E eu, já imaginando o que poderia acontecer, respondi:



— Eu gostaria, Campeão, mas nesse dia eu tenho que fazer a prova para minha bolsa de estudos aqui no Rio, dura o dia todo…

— Que horas é a prova?

— das 7 às 16h.

— Pronto! Nosso show é às 21h em S. Paulo. Você faz sua prova, pega a Ponte Aérea e chega lá no Ginásio da Portuguesa a tempo, vamos te esperar… tem uma passagem te esperando no aeroporto.

E como tinha de ser, eu fiz a prova no Rio, e peguei o avião pra Sampa e um táxi para o local do show. Cheguei na Portuguesa e estava acontecendo um tipo de festival, a Clementina de Jesus e Xangô da Mangueira estavam cantando, e lá atrás do palco, o Hermeto e o resto da banda. Fiquei feliz de rever o pessoal, e o Hermeto me cumprimentou:

— Está pronto?

— Estou, Campeão.

— Então vamos nessa. O concerto foi totalmente diferente do que aconteceu no Rio, o público em São Paulo ouvia de uma forma muito diferente. Foi a primeira vez na vida em que eu percebi que cada nota que eu tocava ressoava em alguém lá na platéia, e voltava para mim com uma vibração. Tudo o que a banda tocava era amplificado não pelos alto-falantes, mas pelo povo que estava ali bebendo daquele som. E eu vi como o Hermeto se alimentava daquela vibração. Naquela época ele tocava uma flauta com captador e uma caixa de efeitos que ele podia manipular, achando sons de microfonia e distorções, que antes só com Jimi Hendrix eu havia ouvido. Ali, naquele momento, eu entendi o porquê do apelido de “Bruxo” que o Hermeto tinha. A flauta era uma varinha de condão, e ele a usava de uma forma natural, sem maneirismos, tocando e apontando para o amplificador, usando a microfonia como uma melodia. Ouvi naquele concerto outros temas que nunca havia conhecido, inclusive a linda “Aquela Valsa”, que o Mauro Senise tocou de sax soprano. Eu não toquei o piano o tempo todo; várias vezes o Hermeto corria e me enxotava do teclado, dizendo:

— Vá pegar uma percussão e fique ali ao lado do Pernambuco, mas sempre de olho em mim. Eu ia, e enquanto tocava um triângulo ou caxixis, observava como ele era capaz de pegar um certo ritmo ou estilo e injetar uma coisa nova, uma nova tonalidade, até que a maré se estabilizava outra vez, e ele me dava um sinal para retornar:

— Agora fique tocando assim, mas não deixe a peteca cair de novo!

Eu, que nem sabia que a peteca tinha caído, achava que estava tudo bem, mas ele estava ouvindo tudo, e com firmeza e carinho, corrigia meus muitos erros e comentava depois:

— Olha, eu às vezes grito e pareço meio grosseiro no palco, mas o som está rolando, e o som é sagrado. Não ache que eu estou com raiva, estou cuidando do som. A maneira carinhosa com que ele tratava todos do Grupo deixava isso bem claro, mas ele nunca deixava passar um segundo em que as peças daquele quebra-cabeça complexo estivessem fora do lugar, sem que ele interviesse para ajustar um ou outro detalhe.

Em São Paulo, passei a conhecer o lado estradeiro do Hermeto. Em casa no Jabour, ele nunca saía, ficava em casa vendo futebol e tocando, mas nas viagens ele se tornava aquele personagem que os índios americanos chamam de “Coiote”, o brincalhão esperto, o coringa multicolorido que desafia, desacata e desafia tudo que estivesse na frente do Som. Na manhã seguinte ao show da Portuguesa, eu fui ao seu quarto de hotel e ele me disse:

— Ouça esse choro lindo que eu escrevi: e tocou sentado na cama um chorinho de 3 partes no sax soprano, e eu pensando: Como nunca ouvi esse choro antes? Ao fim, ele disse:

— Escrevi nada, inventei isso agora mesmo, improvisei a música inteira. Isso para mim passou a definir a essência Hermética. O improviso tão estruturado que parece escrito, e a escrita tão fluida que parece fluir da chama do improviso free.

Outra coisa que me atraiu muito no Hermeto era a fibra nordestina. Como neto de sergipano, cresci ouvindo o linguajar e a maneira nordestina de pensar, falar e agir, e o Hermeto representava o arquétipo do “cabra da peste”, o vaqueiro do agreste que dribla o clima, a distância, as limitações físicas e tudo o mais que vier ao encontro da sua rota traçada pelo destino. Hermeto me lembrava um peão montado num cavalo chucro, correndo no meio da caatinga espinhosa atrás da rês desgarrada da melodia, usando a rede da harmonia e o tropel da zabumba para alcançar seu objetivo.

Com o fim do ano de 1977, tudo aconteceu ao mesmo tempo para mim: a descoberta de um universo musical de cuja existência eu nem suspeitava, junto com a aprovação para o curso de mestrado em ecologia no Instituto de Pesquisas da Amazônia. Uma escolha devia ser feita, e logo.

Uma trilha que se bifurca na mata, sem sinais ou setas apontando o caminho certo. Deveria eu seguir os estudos iniciados, explorando com a mente as muitas conexões entre a natureza e os seres vivos, ou pular de cabeça nesta aventura de músico, aprendiz do feiticeiro com varinha de condão de prata, e muitos truques escondidos na cartola branda da sua cabeleira? Foram umas semanas de muita reflexão e insegurança. Aos poucos me dei conta que naquele momento eu era um passageiro na estação ferroviária, vendo dois trens passando, aparentemente indo em direções contrárias. E ali naquele instante, pude entrever o espaço entre os vagões, como uma janela entreaberta. Essa era minha chance de saltar, confiar na intuição e encarar o desafio da música, sobre a qual eu sabia nada ou quase nada, deixando a linha reta da ciência, uma estrada asfaltada onde eu sabia como avançar, pela corrente do rio da música, cheia de surpresas, com suas enchentes e secas. Nadar ou afundar…

Tive o apoio fundamental de meus pais, que nunca se opuseram à minha decisão. Lembro claramente quando disse a meu pai que iria recusar a bolsa do INPA para ficar morando em Realengo, ensaiando todos os dias com uma trupe mambembe. Ele me disse calmamente:

— A vida é sua, tome sua decisão e siga em frente. Só não me venha dizer daqui a seis meses que quer ser biólogo outra vez, certo?

E esse foi o começo de um novo capítulo, um aprendizado que me pediu quinze anos de minha vida, e que me deu em troca a chave do Universo da Música.

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Jovino Santos Neto.

www.jovisan.net                 www.facebook.com/JovinoSantosNeto)
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Este é um capitulo , do futuro livro que está sendo escrito pelo próprio músico.

Complemento: Seus pais José Jovino dos Santos, (farmacêutico que por muitos anos administrou uma farmácia na Av. Santa Cruz em frente à Travessa Rodrigues Marques e Maria José Campos dos Santos, (Dona Zezé) ). Em breve falaremos mais desta família que serviu de inspiração para a readaptação da série “A Grande Família“
fonte: site do próprio: Jovino: Piano, teclados, flauta, compositor, arranjador, produtor.

Criado em Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Jovino iniciou sua carreira musical aos 16 anos, tocando
composições originais no Vacancy Group (ex- Os Birutas) em shows nos subúrbios cariocas. A partir de 1974 passou 3 anos em Montreal, no Canadá, onde foi membro fundador do conjunto Mèlange. Ao retornar ao Brasil em 1977, foi convidado por Hermeto Pascoal para integrar seu grupo.
Durante 15 anos, Jovino colaborou em tempo integral com Hermeto, como pianista, flautista, co-produtor de 7 discos e responsável pelas excursões internacionais do grupo. Criou um arquivo para documentar e preservar as milhares de composições de Hermeto.
 
Em 1993 Jovino mudou-se para Seattle, nos Estados Unidos, para estudar regência e desenvolver sua carreira como compositor, pianista e arranjador. Entre 95 e 97 tocou com Airto Moreira e Flora Purim em discos e turnês por todo o mundo. Formou o Jovino Santos Neto Quarteto em 94 com músicos de Seattle, e lançou o discos Caboclo  em 1997, Ao Vivo em Olympia  em 2000 e Canto do Rio, indicado ao Grammy Latino de 2004 em 2003, todos pelo selo Liquid City Records. No mesmo ano gravou Serenata em duo com o bandolinista Mike Marshall pela Adventure Music, onde lançou em 2006 Roda Carioca, seu trabalho mais recente, que foi indicado também ao Grammy Latino de 2006 como melhor disco de jazz latino do nao.
 
Jovino, também editou 32 partituras de Hermeto Pascoal publicadas no livro Tudo é Som pela Universal Edition.
Jovino Santos Neto é professor de piano e composição no Cornish College of the Arts em Seattle, Presidente da filial Noroeste da Academia Nacional de Gravação (NARAS) e afiliado à IAJE (
Associaçãol Internacionall dos Educadores de Jazz). 

"Realengo" (De Adjetivo a Substantivo).

Por Armando Silveira

“Realengo” 

Derivou-se o Português, como língua Românica, do Latim vulgar. O Portugês, o Espanhol, o Francês, o Italiano, o Provençal e o Catalão são línguas Românicas porque tiveram a mesma origem. Na realidade, são a continuação do Latim vulgar. O Latim foi levado a todos os povos pelos soldados Romanos. O Império Romano conquistou imensas regiões e levou, através de seus soldados, o Latim vulgar. Vulgar, porque era falado por povos sem cultura.

Para conhecermos melhor nossa língua, devemos estudar os fatos históricos e os acontecimentos que motivaram a sua origem em relação ao Latim, as línguas acima mencionadas, não passam de meros dialetos, enriquecidos com palavras de outros idiomas, inclusive os indígenas.

Etimologicamente, Reguengu, Reguengo ou Regalengo, vem do Latim: Regalis, Regale, que traduzido diz-se do que é inerente ao Rei, propriedade da Coroa Real. O adjetivo Regalengo, por síncope perde o “G” e o adjetivo que qualificava um direito do Rei, passa a se chamar Realengo. As terras devolutas, sem cultivo, por “Direito”, pertencem à Coroa Real .Citamos por exemplo: Cunhar moedas ou dinheiro, era um “Direito” que a Coroa Real exercia sobre aqueles bens. Portanto, Realengo era um adjetivo que qualificava um “Direito” de propriedade das terras pertencentes à Coroa Real e que mais tarde vai tornar-se um “Substantivo Próprio”.e que mais tarde vai tornar-se um “substantivo próprio”.

João III, Rei de Portugal, criou as Capitanias Hereditárias em 1532. No intento de colonização, fracassaram. Mais tarde criou o Governo Geral. Somente duas Capitanias porsperaram: São Vicente e Olinda. Após a expulsão dos Franceses do Rio de Janeiro, Já no Governo de Martim Correia de Sá, por volta de 1612, ele concedeu a Gaspar da Costa novas “Sesmarias” para serem cultivadas. Sesmaria era uma medida agrária que media 6.600 metros de extensão. Terras localizadas desde a atual estação de Marechal Hermes até o Jericinó, nome Tupí, que quer dizer: Localidade ou maciço ou mata. Gaspar da Costa, construiu uma grande fazenda com um grande engenho e que lhe deu o nome de “Sapopemba”, devido a grande quantidade de raízes achatadas alí existentes. Sapopema ou Sapopemba é um nome índigena.

A fazenda prosperou, o açucar produzido seguia para Portugal, o progresso transforma vilas em povoados e cidades. Com a morte de Gaspar da Costa, os herdeiros, aos poucos se desfizeram da grande fazenda Sapopemba. Com a população crescendo, surgiram os primeiros colégios e o adjetivo que qualificava aquela região outrora, prevaleceu “O substantivo próprio Realengo”.

300 anos nos separam daquele tempo. Vem revoltas, as ditaduras o progresso transformador, os políticos que procuram o inusitado, transformando nomes de ruas e praças. Mas, a história é indelével. Os fatos históricos ficam registrados. Agora, é evidente, que existe muita história para contar. Mas, a etimologia do vocábulários “Realengo”, está definida.
Por: Armando Silveira

"Para O Jornal Realengo em Pauta”


    Armando Abreu Silveira
Nascido em Fortaleza (PE) em 1928 e morador de Realengo desde 1947- E vem a ser primo direto de Guilherme da  Silveira (O homem que criou a Fábrica Bangu e fez crescer o bairro ao  entorno dela) 
e de outra linhagem é também primo dos atores Milton Moraes e de Renata Sorrah.


bibliografia:  Enciclopédia Koogahn-Larousse  /    Dicionário Melhoramentos /    Dic. Língua Port.. Alpheu Tersariol /    Aurélio Século 21. /      Arquivo Municipal RJ.
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obs: Este texto foi escrito com exclusividade para o Jornal Realengo em Pauta, e nos foi cedido para publicação neste blog, com autorização de seu autor.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Wilson Moreira, uma lenda do samba é cria de Realengo.

Esta entrevista está originalmente postada no link abaixo, e todo o seu conteúdo é de propriedade dos autores e nos foi autorizado pelo Sr. Eduardo Goldenberg a sua transcrição na integra em nosso blog.
 http://butecodoedu.wordpress.com/2006/10/02/entrevista-wilson-moreira/
- observem as datas e refaçam as contas

02/10/2006 · 19:30

ENTREVISTA – WILSON MOREIRA
No sábado, 30 de setembro de 2006, recebi em casa, às nove e meia da manhã, esses três craques, parceiros novos, e pela ordem de chegada, Simas, Rodrigo Ferrari e Pratinha, que me deram a honra da presença em meu mui humilde Buteco do Edu, não o virtual!
Pratinha, Simas e Rodrigo Ferrari, no Buteco do Edu
É que tínhamos marcada, às dez e meia da manhã, uma entrevista com Wilson Moreira, em sua casa, na aprazível vila na Rua Barão de Ubá, na Tijuca. O que não sabíamos é que Wilson Moreira e Ângela Nenzy transformariam aquela manhã/tarde num verdadeiro acontecimento! Muita cerveja, lombinho de porco, lingüiça, frango assado e uma sopa de ervilha monumental escoltaram o carinho dos anfitriões, que nos receberam de alma e coração abertos, estrada perfeita para que a conversa fluísse sem pressa, emocionada, cheia de momentos capazes de quase-derrubar a gente.

Foram 90 minutos de papo – que deixaram um inevitável gostinho de quero-mais – com o Wilson, que revelou-se, vocês verão, um baú vivo de histórias nunca dantes contadas. Estejam à vontade, que a semana é dele. E ao longo da semana, como tem sido praxe aqui no Buteco, agora sim o virtual, vou disponibilizando vídeos gravados ao vivo, com Wilson cantando acompanhando pelo 7 cordas do Pratinha.
Com vocês, Wilson Moreira!
Edu, Simas e Wilson Moreira
Eduardo Goldenberg: Wilson, você vai fazer agora em dezembro, 70 anos…
Wilson Moreira: É…
EG: Eu queria que você contasse pra gente o nome dos teus pais, o dia que você nasceu, e que contasse as histórias da tua infância, pra que a gente pudesse começar, as tuas primeiras memórias, eu sei que você tem uma história de herança, de teus avós, teus pais, de jongo, caxambu…

WM: Eu sou de 12 de dezembro de 1936. Você sabe que naquela época, rapaz… Eu era muito menininho, meu pai foi embora eu tava com 8 anos de idade… Meu pai foi embora em 45…

EG: Como chamava o seu pai?
WM: Meu pai era Francisco… Francisco Moreira Serra. Ele era conhecido como Chico lá em Realengo. Ele era funcionário do IAPI, o antigo Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Industriários. Tinha vários institutos. Era IAPETC, IAPP, IAPM… Aí juntaram tudo e fizeram o INAMPS, não é isso? INPS, essas histórias todas… Mas você sabe que o velho, rapaz, era um desbravador. Quando terminou a guerra ele levou a gente lá pra ver os militares… Que ali é área militar, né? Realengo, Vila Militar, o Campo de Marte, o quartel da EVA, onde hoje é a Praça do Canhão.
Rodrigo Ferrari: Qual foi a rua que você nasceu?
WM: Eu nasci na Rua Mesquita, paralela à Vila Vintém. Morei em casa de sapê, no bom tempo… (ri) Tempo em que soltava balão e ninguém se incomodava com negócio de “vai queimar…”… Vai queimar nada! A gente fazia balão, soltava, fazia fogueira… Eu mesmo gostava de fazer balão. Fazia balão caixa, santos dumont, tangerina…
EG: E sua mãe chamava como?
WM: Mamãe era Hilda Balbina. Mineirona! Daquela área de Juiz de Fora, Matias Barbosa. Dali ela veio pra Paraíba do Sul, pra Andrade Costa, Avelar… Meus tios… tudo ali, primos, tava tudo ali. Até hoje eu tenho uma priminha que mora lá em Paraíba do Sul. Aliás, o Sérgio Cabral tá com um casarão lá em Paraíba do Sul… De vez em quando eu encontro com ele e a gente conversa, e eu até falo com ele isso… Minha prima mora lá, trabalha numa casa de material de construção… Ela já me falou que viu ele lá algumas vezes.
EG: Você tem lembrança do teu primeiro contato com música?
WM: Olha, rapaz… Meu primeiro contato com música? Eu sei dizer que o meu avô – minha mãe contava – , eu não conheci os meus avós, não… Minha mãe contava que eles eram sanfoneiros, jogavam caxambu, gostavam de dançar jongo… O jongo é uma coisa muito mística, uma coisa muito séria. É uma coisa religiosa. Esse jongo que eu faço é um jongo festivo, é um jongo que todo mundo pode cantar e brincar à vontade, sem abusar, né? Tem gente que quer me chamar de jongueiro! Eu não sou jongueiro! Jongueiros são os velhos, os meus antepassados foram jongueiros! Lá no Império teve grandes jongueiros! Seu Aniceto falava que o jongo era uma coisa muito séria, não era pra ser mostrado, assim, de qualquer maneira, em qualquer lugar. E é verdade! E você sabe que eu tinha um tio, meus primos lá de Paraíba do Sul e Avelar, que tocavam sanfona de oito baixos e a origem deve estar vindo daí, né? Eu tive influência dessas coisas todas. Que quando eu era moleque novo eu ouvia muito rádio, Rádio Tupi, Rádio Mayrink Veiga, Rádio Mauá, tinha muito programa de rádio. Heber de Bôscoli, Iara Sales, Lamartine Babo… Houve um tempo em que eu até cheguei a ir, rapaz, no início da minha carreira, à Rádio Mayrink Veiga assistir a um musical e ali eu vi o Heber de Bôscoli, a Iara Sales, o Lamartine Babo…
RF: Anos 50 isso?
WM: Foi, nos anos 50.
EG: Quando é que você diria que começou a sua carreira?
WM: Sabe… Eu tinha 14 pra 15 anos… 16, por aí.
RF: Qual a primeira música que você fez?
WM: A primeira mesmo? (pensando)
RF: Quem foi teu primeiro parceiro? Ou a primeira mesmo você fez sozinho?
WM: Eu fiz sozinho. Fiz sozinho. Agora, o meu primeiro parceiro mesmo foi um camarada que tinha lá em Padre Miguel, chamado Ivan Pereira, que tinha o apelido de Da Volta. É um cara que comigo começou tudo. Eu e ele, naquela luta na Mocidade Independente… Depois eu vou contar como é que eu fui pra Mocidade Independente. Aí ele conversou comigo e sugeriu: “Ô, Wilson, vamos fazer um samba juntos?”. “Vamos!”. “É que você já me mostrou um negócio aí e eu tenho um negócio que eu gostaria de te mostrar, eu sei que você gosta de cantar…”. E eu gostava mesmo! Minha irmã foi cantora, foi caloura, né?
EG: Como se chamava a sua irmã?
WM: Julieta. Minha irmã era funcionária da Fábrica Bangu naquela boa época?
Simas: Eram quantos irmãos?
WM: Seis! Perdi uma irmã novinha… Isso eu morava num casarão lá em Realengo. Realengo foi o meu reduto. Onde eu nasci… E eu morei em vários lugares ali, sabe? Aí uma irmã foi embora cedo. A Julieta foi embora mais tarde. Julieta era mais velha do que eu. Ela gostava de cantar… Antigamente tinha programa de calouro em qualquer lugar. O pessoal fazia programa de calouros, sabe? O pessoal botava a gurizada que tinha talento pra cantar e dava um prêmio! E minha irmã cantava muito… Tinha umas músicas que a Ângela Maria cantava… Linda Batista… Emilinha Borba… (Wilson pigarreia uma, duas, três vezes…) Pô… se eu bebesse conhaque não aconteceria isso!!!!!
(risos gerais)
WM: Que coisa, né? Vou pedir a Ângela pra botar um vinho pra mim…
(pede o vinho)
WM: Olha, vou te contar uma coisa! Se a minha irmã gostasse de carreira de cantora ela talvez fosse até aproveitada como cantora! Porque ela cantava direitinho, sempre tirava o primeiro lugar nos programas de calouro que tinha lá em Realengo, Padre Miguel… Naquela época nem era Padre Miguel, era Moça Bonita, né?
RF: E esses programas de calouro eram festas na rua ou eram programas de rádio mesmo?
WM: Eram festas nas casas das pessoas. O pessoal fazia uma brincadeira em casa e fazia aquela programação de calouro e as meninas se inscreviam, a rapaziada que gostava de cantar…
RF: Era uma coisa do bairro?
WM: É verdade. Você sabe que tinha até uma casa, lá em Realengo, que era uma espécie de teatro… Tinha umas peças teatrais… Tu vê que a rapaziada ali era bem aproveitada nisso, sabe?
RF: Tinha nome essa casa, esse teatro?
WM: Não! Era uma casa de família!
RF: Que a família transformava num teatro?
WM: É… Nos anos 50…
(Ângela chega com vinho do Porto)
WM: Não… (rindo) Isso é pra tomar só um pouquinho… Pega aquele que tá lá embaixo da pia…
Tiago Prata: Os cantores que concorriam nesses programas tinham o acompanhamento de um regional?
WM: Não! Tinha um cara que tocava cavaquinho e violão. Só. Os coroas ali do bairro… Qualquer um! (rindo) Era o maior barato! Você sabe que ali em Realengo teve grandes músicos como Darly Louzada… Grande 7 cordas! Um dos primeiros 7 cordas!
TP: Tocava no regional da Rádio… não lembro agora o nome…
WM: Nacional Tupi!
TP: É!
WM: Ele começou no Ary Barroso. O Ary Barroso bateu nas costas dele e disse “vai à luta que você é bom, rapaz!”. Foi meu parceiro ele… Eu devo ter fita guardada em algum lugar…
TP: Tem música tua gravada com ele?
WM: Com o Darly?
TP: É.
WM: Tem! O Darly participou do meu primeiro disco, chamado Matéria Paga. Não era independente, era matéria paga naquela época! (todo mundo ri) Isso em 67. O Darly organizou! Você sabe quem tocou na época comigo? Darly, Periquito, aquele Periquito, antigo, do cavaquinho, o Arlindo Russo do Regional da Tupi.
TP: Mas o Darly Louzada compôs contigo?
WM: Tenho duas músicas com ele.
(chega o vinho que o Wilson pediu)
Wilson Moreira
TP: Meu pai chegou a pesquisar um pouco sobre o Darly, um cara muito esquecido…
WM: Ele era ótimo!
EG: Mas vamos volta um bocadinho, Wilson! Você tava contando sobre tua parceria com o Da Volta…
WM: É… Com o Da Volta eu fiz samba de terreiro, na Mocidade. Fiz samba-enredo, meu primeiro samba-enredo, primeiro e segundo samba-enredo eu fiz com ele!
RF: Pra Mocidade?
WM: É, pra Mocidade…
S: Wilson, você foi fundador da Mocidade?
WM: Eu fui um dos fundadores, me considero um dos fundadores, porque tinha uma escola de samba em Realengo, nos anos 50, chamada Unidos da Água Branca. Onde começou tudo.Eu tocava tamborim e ficava ali, né?, assistindo os ensaios e tocando tamborim. Aí… Veja só… Um dia, já próximo ao carnaval, chegou lá um diretor da Mocidade Independente… A Mocidade era uma escola que desfilava no bairro, em Padre Miguel, Bangu e Realengo. Aí eles se inscreveram na associação das escolas de samba e foram desfilar na Praça Onze no carnaval. Daí chega um diretor um dia, nós estávamos numa brincadeira, fazendo um ensaio. Terminou o ensaio a gente ficou ali batendo papo, né? E eu sempre participando do papo junto com a rapaziada. Aí chegou um diretor da Mocidade, um relações públicas, assim: “Boa noite! Boa noite, gente! A Unidos da Água Branca vai desfilar no carnaval? Aonde?”. “A gente desfila em Realengo mesmo…, no ponto central do bairro, né?, no desfile principal.”. Aí ele falou: “Não interessa a vocês desfilar com a gente no carnaval lá na Praça Onze?”. “Vamos ver, né?”… O presidente nosso, era o Tião… A gente chamava ele de Tião Presidente porque ele andava com um bracelete, uma faixa aqui no braço escrito “PRESIDENTE” (ri muito) O Tião era uma figura! Andava pra lá e pra cá com aquilo… “PRESIDENTE”. Aí o presidente conversou com o Renato – Renato era irmão do Mestre André, né? Ele era relações públicas da Mocidade – e o Renato disse “Olha, a Mocidade vai desfilar pela primeira vez na Praça Onze. Então a gente tá querendo conteúdo, tá querendo gente, e como vocês são verde e branco igual a nós…”.
RF: Que ano foi isso?
WM: Foi em 52, 53… 54, mais ou menos por aí. Então ele continuou: “Como vocês são verde e branco, a gente tá pegando essa turma desses blocos, dessas escolas que são verde e branco pra juntar com a gente e ir lá pra Praça Onze, pra fazer um número suficiente pra gente poder alcançar uma boa posição lá.”. Aí o nosso presidente topou: “Gente, vocês querem desfilar com a Mocidade Independente no carnaval?”. Aí fomos desfilar com a Mocidade. A Mocidade tirou em quinto lugar na Praça Onze. Eu me considero fundador, né? Tiramos em quinto lugar e sabe que nessa brincadeira a Unidos da Água Branca acabou? Ficou todo mundo lá na Mocidade…
RF: Fundiu tudo?
WM: É. Fundiu. Não foi uma fusão oficial, não! O pessoal foi pra lá! Que nem o Salgueiro… O Acadêmicos do Salgueiro é uma escola nova! Tinha a Unidos do Salgueiro que não fundiu com o Salgueiro! Não juntou! Parece que também acabou e foram pra lá! Eu me lembro disso… A Acadêmicos de Salgueiro é uma escola nova! Isso nos anos 50…
S: Salgueiro é de 1954…
WM: É… Salgueiro não é uma escola velha, não. É uma escola nova. Como o Império também não é uma escola antiga. A Portela tem o quê? Oitenta e tal! A Mangueira também tem uma cacetada de anos, né?
RF: Esses sambas-enredo que você falou que foram os primeiros que você fez…
WM: Foi em 62!
EG: Você e Da Volta?
WM: Eu e Da Volta.
RF: O primeiro que emplacou ou o primeiro que você fez? Ou já emplacou logo o primeiro?
WM: Vou te contar. Sabe o que aconteceu? Nós recebemos o histórico, o tema – antigamente era histórico mesmo, hoje em dia é sinopse, né?! (todo mundo ri) – e o pessoal vinha animado, quando ia andando lá pra Mocidade dizendo “Vai lá na Mocidade?”, “Já apanhei o meu tema, hein!”, “Tá legal! Vou pegar o meu agora!”. O pessoal ia animado pra ver aquilo, pra ler… Era a História do Brasil! Era tema obrigatório! Hoje em dia é grego, Europa…
RF: Chico Recarey!
WM: (rindo muito) Chico Recarey! Mas era História do Brasil. Era obrigatório! E sabe que o Brasil é tão grande… Tem coisa aí à beça pra exaltar, sabe que ainda tem? Os caras não querem. Acham que não dá leite mais. Dá leite, sim, sabe? Tem tanta coisa aí pra você exaltar aqui dentro do Brasil, coisas bonitas…, mas eles partem lá pra fora… A Portela esse ano vem com negócio do Olimpo, né? Eu não faço mais samba-enredo. O samba-enredo tomou um rumo muito diferente. Aliás as escolas tomaram um rumo… Viraram Hollywood, né? A Mocidade virou Hollywood!
RF: Não é mais um espetáculo pra quem faz a festa, mas pra quem tá a fim de comprar…
WM: É… Tu vê os sambas-enredo que eu ganhei junto com o Nei Lopes, aquela linha, né? Eu fiz um samba com o Adalto Magalha… Nós concorremos na Unidos da Tijuca… Eu não podia aparecer que a Unidos da Tijuca era do primeiro grupo, como a Portela, e eu pertencia à ala de compositores da Portela e o Adauto à ala da Unidos da Tijuca. Eu falei: “Adalto, eu vou fazer um samba contigo, mas você canta sozinho, lá, que eu não posso nem der as caras lá, se não o Seu Natal vai me dar umas lambadas, lá!” (todo mundo ri). “Pô, mas o que é que é isso?”. “Não, pô… Bota um parceiro…”. O Adalto morava do lado de um diretor. “Bota o nome daquele diretor lá no samba junto contigo!”. “Não, não vou botar ele não! Quero botar é contigo.”. Aí o samba ficou em segundo lugar… Aquele samba que o Marçal gravou: (cantando) “Nessa epopéia de glória / A cultura de um povo!”… Uma história sobre os malês, que é uma história bonita, sobre os negros malês, são uns negros bacanas, né?… Uma história muito bonita… Aí uma vez eu fui com o Adalto lá no morro, depois do carnaval, né?, no tempo em que se podia ir no morro à vontade, lá no Borel, aí um componente da escola e o compositor que ganhou, Jorge Moreira, falaram assim: “Esse samba aí que você fez era pra ser o vencedor… um samba lindo!”, e eu “Pois é, rapaz, mas infelizmente ficou em segundo lugar…”. Aí, veja só, o Marçal tava na Portela, né? Marçal brigou lá com a diretoria da Portela e foi pra Unidos da Tijuca. O presidente da Unidos da Tijuca contratou o Marçal: “Marçal, tu quer vir pra cá dirigir a nossa bateria?”. “Vou…”. Aí um dia o Marçal tava consertando os instrumentos lá, e tal, e disse que os sambistas lá do Borel começavam a cantar: “Nessa epopéia de glória / A cultura de um povo / Mostramos com graça / A força de uma raça…”… E ele: “Puxa vida… que samba bonito é esse?”, “É um samba que perdeu aqui na Unidos da Tijuca…”, “Pô, de quem é?”, “Adalto Magalha e Wilson Moreira!!!!!”.
RF: Que ano foi isso, Wilson?
WM: Isso foi em…
S: Isso deve ter sido no início dos anos 80. Foi o enredo “Salamaleikum: a epopéia dos insubmissos malês”.
WM: Isso! Isso mesmo! Isso mesmo! Pô… esse aí, hein! Que memória!
EG: É o nosso historiador!
(Wilson ri muito)
RF: Volta lá pra 62 quando você pegou o tema…
WM: Pois é. Aí eu peguei o tema e o Da Volta falou assim: “Wilson, como é que a gente vai fazer? Tu vai pra minha casa, eu vou pra tua…”. E eu: “vai ser isso. Eu vou pra tua casa, tu vai pra minha, a gente marca um dia na tua casa, outro dia na minha casa…”. Aí começamos. Lemos e relemos o tema, né? Tava bonito! Aí eu comecei a cabeça: (cantando) “Brasil / Oh, meu grande Brasil / Hoje exaltamos mais um trecho da tua História / Glórias e glórias / Grandes vultos em nossa memória! / Brasil no campo cultural / Apresentamos com grandeza / Abrilhantando este carnaval / Laiá laraiá laraiá lalaialaiá…”. Era o solfejo. Aí entra a outra parte… Mas a terceira parte eu não lembro… Porque houve um problema lá na hora da reunião que nós fizemos – a reunião era na casa do Seu Eurico, era o presidente da ala dos compositores – e todo mundo com o samba pronto foi pra casa dele. Ele disse: “Olha, vamos na minha casa que hoje vai sair o samba de enredo escolhido para o desfile de carnaval da Mocidade”. Seu Eurico resolveu fazer o seguinte… Quando chega nessa parte (canta) “De Dom Pedro Segundo / Herdeiro do trono do Imperador / Dom Pedro Primeiro”, ele disse: “Bota essa outra parte aqui do Jurandir!”. Jurandir é um cara que foi meu parceiro e que já foi embora. “Bota essa parte do Jurandir aqui e bota essa outra parte do Arsênio!”. E eu não lembro das duas partes, rapaz… Ficou bonito… Aí terminava com o solfejo. E nós fomos desfilar na avenida e a escola ficou em sexto lugar. Que era uma colocação boa pra Mocidade… Que naquela época tinha as chamadas quatro grandes, Império, Portela, Salgueiro e Mangueira. Mas tinha Capela, Aprendizes de Lucas, né? Que eram boas pra caramba! E a Mocidade entrou ali com a bateria, era chamada a escola da bateria! Não sei se vocês souberam disso. Ela tinha uma bateria fenomenal!
S: A paradinha…
WM: Mestre André… E essa paradinha, rapaz, foi dos anos 50. Um barato. Foi um barato. Então a Mocidade já desfilou entre as grandes, na Rio Branco. Foi um barato. Tomei o gostinho da coisa e no outro ano nós apanhamos o outro tema. Esse primeiro foi “Brasil no campo cultural”. Um título bonito, um enredo bonito, um histórico bonito, fácil, bom de você ler. Hoje em dia você vai fazer um samba, todo mundo se mete, carnavalesco se mete, o compositor não tem direito de fazer as coisas à vontade.
TP: O patrocinador se mete…
WM: É… Você sabe que bom é você pegar um tema, digamos… Você vai fazer um enredo sobre o Estephanio´s. “Wilson, o tema taí, leva lá o tema…”. Aí tu me deixa à vontade e eu vou fazer o samba, e o bloco sai (imita o som de uma bateria). Né? Vou fazer o samba como nós fizemos o “Sandália Amarela”… “Sandália Amarela” foi um samba de bloco, de desfile de bloco, sabia disso?
RF: Ah é? Qual bloco?
WM: Foi… (rindo) O lance foi o seguinte… Não sei se isso deve entrar aí…
(grita geral)
WM: (rindo muito) Não é nada demais, não… É que eu tava contando uma história, vem outra…
RF: Esses parênteses são bons!
WM: Foi nos 80. Ali na Avenida Passos com Senhor dos Passos, tinha uma sobrado, como tem até hoje…
RF: Agora tem um McDonald´s embaixo?
WM: Tem, agora?
RF: Não sei se é esse ou se é o do lado… Em frente à igreja?
WM: Não… Bom… Veja só… Ali era o Nei Lopes, Rubem Confete, Zé Luiz, Ari Araújo, Flávio Moreira, Os Vissungos… Lembra desse grupo, Os Vissungos? Era um grupo de samba, de samba-afro… Sabe o que aconteceu? Ali rolava show… era tipo Zicartola… roda de samba… tipo Encontros Cariocas, sabe? Então no carnaval o pessoal resolveu fazer um bloco: “Olha, vamos fazer um bloco e escolher um samba…”. Era o Bloco dos Apóstolos do Samba. Aí, escolhe samba daqui, escolhe samba dali, a gente cantava muito esse samba lá (cantando): “Eu dei a ela / Um par de sandálias / Da cor do meu chapéu de palha / Ela de saia amarela / E uma blusa de filó / E eu com uma flor na lapela do meu paletó / Eu dei a ela / Um par de sandálias / Da cor do meu chapéu de palha”. Aí tinham uns versos nossos e tinha os versos da malandragem que cantava de improviso. Tudo dentro dessa música, o pessoal botava os versos de improviso. Então a direção do bloco disse: “Tá escolhido o samba pro desfile do carnaval dos Apóstolos, pronto! É esse aí! Samba de Wilson Moreira e Nei Lopes, Sandália Amarela”. Eu disse, “Pô, mas tem a ver?”, “Tem a ver!”. Aí eu “Bloco é um negócio mais quente…”. Tinha o Cacique de Ramos, tinha o Bafo da Onça, mas ele disse “Não, mas é esse samba que vai pra avenida!”. E você sabe que deu pé?
EG: Esse bloco desfilou quantos carnavais?
WM: Desfilou um carnaval!!!!!
(todo mundo ri)
pôster na parede da sala, na casa de Wilson Moreira
EG: Então deixou de ser samba pra ser o hino, então!
WM: (rindo) É… pergunta isso ao Nei Lopes uma hora… Abrimos o desfile… o Nei Lopes acho que vai explicar isso melhor… A RIOTUR nos cedeu o carro de som, oito horas da noite, desfilando pela avenida… Em cima tinha os velhos partideiros dizendo de improviso e cá embaixo a gente cantando: (cantando) “Eu dei a ela / Um par de sandálias / Da cor do meu chapéu de palha / Ela de saia amarela / E uma blusa de filó / E eu com um flor na lapela do meu paletó / Eu dei a ela”. Todo mundo aprendeu na hora e cantava junto! Aí os caras diziam uns versos (cantarola)… Nós saímos lá do Simpatia, lembra do Simpatia, aquela choperia? Acabou aquilo, né? Era ótimo. Do início da Rio Branco até a Praça Floriano. Aí o dono de um bar, de um restaurante, ali na Santa Luzia falou assim: “Vocês tão todos convidados a tomar um chope lá no meu restaurante… Eu gostei do samba… E ele cantou ´Eu dei a ela / Um par de sandália!´”… Foi um barato isso! Aí quando foi em 80 nós fizemos o Arte Negra, né? E em 85 nós fizemos o Partido Muito Alto. O falecido Rogério Rossini e o Genaro, que foi o nosso produtor, disseram: “Bota o ´Sandália Amarela´…”. Aí o Rogério fez aquele arranjo bonito… (cantarola)… Bonito, né?
S: Maravilha!
WM: E a música taí até hoje, rapaz… E é pedida… Se eu não cantar, o pessoal cobra! (rindo) Deu um tremendo pé!
EG: Wilson, vamos retomar o fio da história das parcerias… Quando você começou, lá atrás, com o Da Volta, você já tinha consciência de que queria viver de música?
WM: Tinha!
RF: Você tinha outro emprego?
WM: Eu tinha. Eu vou dizer um negócio a vocês… Eu fui, rapaz… Eu vou dizer o que eu fui… Antes de eu ser bombeiro hidráulico eu fui uma porção de coisas… Entregador de marmita, guia de cego, vendi doce, bala, eu vendia amendoim na ponte de Realengo… Eu era conhecido como Amendoim até um determinado tempo lá em Realengo. O pessoal dizia: “Esse aí é o Amendoim mesmo?” (ri muito) (todo mundo ri) Pessoal me conhecia como Amendoim, não me conheciam como Wilson Moreira.
RF: Nessa hora então você já sabia que era compositor?
WM: Exatamente! Mas aí, rapaz, veja só… Com o Da Volta eu fiz vários sambas de terreiro… Eu tinha samba de terreiro que até hoje é cantado por aí… O pessoal lá de cima, quando me encontra diz “Ô, Wilson… (cantando) ´Já pedi pra você me deixar…´” isso era samba de terreiro lá na Mocidade!
EG: Você lembra de um? Faz aí pra gente gravar!
WM: Agora? Olha só… Vou fazer um inédito que é daquela época e que tá no projeto da Ângela que se Deus quiser a gente vai transformar em disco: (cantando) “Amei demais alguém, porém / Não deveria amar / Sofri com o pão / Que o diabo amassou com os pés / Hoje…”.
EG: Esse é você com quem?
WM: Eu e Da Volta.
RF: Nessa época era samba de terreiro sempre, né?
WM: Era… Samba de terreiro prevalecia, rapaz, na quadra! Incrível, né? E a Mocidade era uma escola tão simpática, que as pessoas saíam da cidade, eram jornalistas, pessoal de rádio… Jamelão não saía da Mocidade! Seu Natal da Portela era freqüentador assíduo lá, tinha até um cargo na Mocidade. Então ele ia pra lá assistir aos ensaios e ficava amarrado no samba de terreiro que a gente fazia lá. Aí um dia ele chegou e me convidou. Quando eu acabei de cantar o samba e desci do palanque e falou assim: “Você não quer ir pra Portela não, garoto?” Aí eu falei assim: “Olha, Seu Natal, eu adoro a Portela, gosto da Portela desde essa idade de pequeno, agora… um dia eu vou pra lá… Que eu sou daqui, né?!”. Eu tinha um samba que eu botei no Okolofe, produção do Maurício: (cantando) “Até breve / Amável povo da cidade / Que tanto me orgulha / Venho de lá das quebradas, de longe / Honro o nome de uma Mocidade / Digo com prazer / Com prazer / Mocidade Independente é uma das razões do meu viver / Canto com muito alegria / Esqueço a nostalgia / Que tanto me invade / Até amanhã, povo da cidade / Ou até para o ano / Saudades vou levando / Até / Vou partir / Brevemente nos veremos / Sou da Mocidade”.
TP: Esse samba é seu sozinho?
WM: Meu sozinho. Sabe o que aconteceu com essa samba? A diretoria da escola falou assim: “Esse samba vai ser o samba de fechamento do desfile no carnaval.”. Nesse ano a Mocidade estava desfilando da Candelária pra Central do Brasil. Não lembro qual era o samba-enredo desse ano, mas foi um dos últimos anos meus na Mocidade. Eu já estava saindo fora. Quando tava chegando quase perto da Central a bateria parou, o diretor de harmonia mandou parar a bateria e entrar nesse samba: (cantando) “Até breve / Amável povo da cidade / Que tanto me orgulha / Venho de lá das quebradas, de longe / Honro o nome de uma Mocidade / Digo com prazer / Com prazer / Mocidade Independente é uma das razões do meu viver / Canto com muito alegria / Esqueço a nostalgia / Que tanto me invade / Até amanhã, povo da cidade / Ou até para o ano / Saudades vou levando / Até / Vou partir / Brevemente nos veremos / Sou da Mocidade”. Aí todo mundo fazia assim ó (acena com o braço)… Era bonito pra chuchu, rapaz!!!!! Essa história é contada até hoje, o Confete fala isso, o Zé Luiz do Império… O Zé Luiz não saía da Mocidade! Esse pessoal ia todo lá pra cima, sabe? Era uma escola simpática e tinha um ensaio bonito. Além disso, quando terminava o ensaio, as baianas iam pra cozinha fazer um panelão – um nunca vi um caldeirão igual aquele, rapaz! -, um caldeirão grandão, acho que era sob medido (ri muito) cheio de sopa, rapaz! Aquela sopa rolava até uma hora da tarde, duas, três, o pessoal não ia pra casa, continuava ali. Aí à noite começava o ensaio, domingo, né? O pessoal já tava ali, continuava… E os caras que vinham da cidade (rindo) não voltavam…
EG: Quando e por que você saiu da Mocidade?
WM: Eu saí da Mocidade em 68. Houve uma animosidade comigo lá, houve um problema lá comigo… Eu não gostei do tratamento que me deram lá… O presidente da ala das compositores não me tratou muito bem, eu discordei e me afastei da ala. Me afastei, fiz uma carta pelo próprio punho e mandei pra lá. Foi me afastamento. Mas a diretoria ficou “Poxa, Wilson, você vai sair da escola?”. “Não, vou me afastar!”. Eu tinha uma ala, uma ala de conjunto, e disse “Vou passar a sair na minha ala de novo, porque na ala de compositores o presidente não tá querendo que eu fique, então vou me afastar”. Aí sabe o que aconteceu? Eu tinha um amigo, que era relações públicas da Portela, e esse amigo morava em Padre Miguel. Encontrei com ele na cidade, a gente ia apanhar o trem pra ir pro subúrbio e ele falou assim: “Wilson, não vou subir agora não , eu vou saltar em Madureira que eu tenho que ir à reunião na Portela.” E eu disse “Pô, rapaz, eu vou aproveitar e acho que eu vou contigo na Portela também…”.
EG: O Seu Natal já tinha te convidado pra ir, né?
WM: Já tinha me convidado! Aí eu fui com ele à reunião.
EG: 68, né?
WM: Isso foi em 68… 68… Quando eu cheguei na Portela a diretoria tava formada pra reunião. Aí ele falou assim “Olha aí! Vim com o Wilson Moreira, que o Wilson Moreira quer assistir nossa reunião…”. Seu Natal tava sentado assim, do lado, ele era Presidente de Honra, o presidente da escola, oficial, era o Seu Armando Passos. Aí a diretoria toda levantou pra me cumprimentar: “Olha, muito obrigado pela presença, esteja à vontade!”, e o Seu Natal falou assim “Esse é o garoto que eu falei que convidei pra vir aqui pra Portela…”. Pô, aquilo foi o maior aval! Eu disse: “Seu Natal, muito obrigado… Prazer…”. Ele disse “Você quer assistir à reunião dos compositores? É lá em cima!”. Tinha uma escadinha… na Portelinha, né?. Aí eu fui lá. O presidente da ala na época era o Picolino, o Carlos Imperial era diretor não sei de quê… A diretoria era bem formadinha, direitinho, sabe? Tava Casquinha, Monarco, Valter Rosa, só tinha fera, Jair do Cavaquinho, Chatim, a turma toda. Aí me abraçaram, falaram “Pô, Wilson, esteja à vontade. Veio assistir nossa reunião?”, “Vim assistir e vou ficar!”… Depois daquela recepção!!!!! (ri muito) A diretoria toda de pé, rapaz! Fiquei na Portela! Até hoje! A Portela ainda não tinha o Portelão, a Portela ensaiava no Imperial, que era um clube que tinha em Madureira, ensaiava no Madureira Atlético Clube e ensaiava no Mourisco. Aí fui ficando. Um dia marcaram comigo lá, perguntaram se eu queria mostrar algum samba, se eu tinha algum samba… E veja só! Tinha uma reunião, que nem nós estamos aqui, engraçado… igualzinho, rapaz!!!!! (fica com os olhos marejados) Cada um cantava um samba. Casquinha cantava samba de terreiro…
Wilson Moreira
EG: Isso aonde, Wilson?
WM: Isso na Portelinha. Isso em 69, mais ou menos por aí… Casquinha, Valter Rosa, Chatim, todo mundo cantando. “Wilson, tem algum samba que tu fez pra Portela?”. “Tem”. Aí cantei meu samba: (cantando) “Quando eu brigar com alguém / Ou tiver um transtorno qualquer / Faça da vida um prazer / Que o mais belo requinte é viver / Deixa a tristeza pra lá / E vamos cantar / Pra comemorar com alegria / Vem pra Portela sambar / No calor autêntico…”. Uma coisa assim: (cantando) “Portela é paz / Portela é gente / Portela é carnaval!”. Aí eu cantei. Mandei fazer naquela época uns folhetos, né? Fiz uns folhetos, pra distribuir pro pessoal, cantei nos ensaios, foi uma maravilha, o samba cresceu na quadra…
EG: Como chama o samba?
WM: “O Mais Belo Requinte”. Aí a Portela ia fazer um disco em 70. Escolheram esse samba. Botaram esse samba no disco. Pô, eu novo na escola, na ala dos compositores… Pô, que bom… Tava iniciando minha carreira…
EG: Mas também você entrou com a benção do Seu Natal, né?
WM: Pois é! (rindo) Não é? Foi um barato! Fiquei como parceiro de outros compositores… Na Portela eu fui parceiro do Antônio Alves, foi um cara que foi vencedor de samba-enredo, fui parceiro de Monarco, fui parceiro do Jair do Cavaquinho, Candeia… Candeia foi o meu parceiro mais constante na Portela.
EG: Então conta aí pra gente a história dessa tua parceria com o Candeia… Como você o conheceu…
WM: Eu já conhecia o Candeia antes dele estar na cadeira de rodas, mas eu não tinha intimidade com ele. Eu ia na Portelinha assistir ensaios e o Candeia ficava lá ajeitando os troféus… Aquele negro alto, né?… (de olhos marejados novamente)… Bom compositor… Era parceiro do Valdir 59 e outros… Ele soube que eu estava na Portela já na cadeira de rodas. Quem tocava e fazia show com ele era o Osmar do Cavaquinho e o Jorge da Conceição. Jorge da Conceição morou em Realengo também. Era vizinho do Darly Louzada, lá na boa época. Ali tinha onde o Jorge morou tinha o Darly, tinha o Neco, do violão, Adilson Bolinha de Sabão, que era irmão do Neco, era bossanovista… (cantando) “Sentado na calçada de canudo e canequinha…”… Era uma coisa assim, né? Irmão do Neco! É crente hoje em dia… Acabou…
(todo mundo ri muito)
WM: Virou crente… crente é fogo! Meu amigo, mas puxa vida… O Candeia falava pro Jorge: “Ô, Jorge, eu tô sabendo que o Wilson Moreira que era da Mocidade tá na Portela com a gente, né? Traz ele aqui em casa pra gente conversar um pouco…”. Aí o Jorge foi lá em casa, em Realengo, ele morava no Batam, na época em que no Batam podia se andar tranqüilamente, hoje em dia tá meio brabo lá. “Wilson, o Candeia tá querendo que tu vá na casa dele, ele tá querendo conversar contigo, lá. Ele mora em Jacarepaguá. Vamos lá? Eu toco com ele, tô sempre lá…”. Aí fomos na casa do Candeia. Chegou na casa do Candeia e o Candeia: “Pô, Wilson Moreira, como é que é, rapaz? Tô sabendo que tu tá na Portela…”. “Tô”. “A gente precisa fazer uns negócios juntos, né?”. “Vamos…”. Aí Candeia de cara me deu logo uma música pra terminar pra ele, “Quero Estar Só”: (cantando) “Quero estar só / Não me veja no espelho pra não me ver acompanhado…”. Aí eu falei: “Candeia, eu tô com um samba na Portela, pra cantar nos ensaios…” – isso depois do “O Mais Belo Requinte” – “E eu vou até passar logo pra você botar uns versos aí pra gente empurrar esse samba nos ensaios…”. Era o “Não Tem Veneno”: (cantando) “Provar / Que não tem veneno / Que não tem veneno, não / Pode provar”. Aí ele botou uns versos… (cantando) “Saí pra trabalhar de manhã / Já caiu o sereno / E voltei de noite… / Diga à dona da casa pra não fazer prato pequeno…”. Tinha um cara que gostava tanto desse samba que um dia eu cheguei lá Portela, e eu não tinha letra pra mandar pro pessoal cantar, e ele disse: “Pô, rapaz! Que samba que vocês fizeram, você e Candeia! Vai lá em cima que eu botei um negócio no palanque!”. (ri muito) O cara botou um pacote assim, cheio de letras!!!!! Montão assim, ó! Aí eu jogava pro público, foi o maior sucesso na quadra! E a bateria tocando… Puxa vida… (olhos marejados de novo) Aí a Sabrina, uma passista da Imperatriz, passista do Teatro Opinião… esse negócio de mulata… mulatas, cabrochas… (ri)… Ela sambava no Teatro Opinião… Às segundas-feiras tinha aquela roda de samba, era um show internacional, né? Era um show pra pandeirista, um jogava o pandeiro na mão do outro, Rogério, Pimpolho, a turma toda… Carlinhos do Pandeiro… E aquelas mulheres dizendo no pé… (gargalhando) Rebolados… Aí a Sabrina foi na casa do Candeia: “Candeia eu vou fazer um disco… queria música…”. E ele: “Aproveita ouve essa música minha e do Wilson Moreira… (cantando) ´Provar / Que não tem veneno / Que não tem veneno, não / Pode provar…´”… Aí ela gravou, rapaz! Gravou, tocou na rádio! Naquela época era fácil gravar e fácil de tocar nas rádios. Ela tocava, rapaz, o tempo todo… E foi o maior sucesso, modéstia à parte… Depois nós viemos gravando, e o povo canta junto até hoje… Eu hoje em dia brinco com o pessoal… Canto, aponto assim (aponta pra um prato de sopa)… (cantando) “Que não tem veneno, não / Pode provar!”. O pessoal gosta, curte isso à beça… (rindo muito)
EG: Quantos sambas você fez com o Candeia?
WM: Ah, rapaz… Você sabe que tem sambas inéditos? Tem o “Afirmação”… Eu há pouco tempo fui fazer um show em São Paulo, convidado do Elton Altman, eu Paulinho, Tereza Cristina, Quinteto em Branco e Preto, Luiz Carlos da Vila, e eu cantei um samba inédito chamado “Samba Livre”: (cantando) “O samba é livre / O samba é vida, oh minha gente / Vem para o samba / Que eu vou também / Samba, menina / Samba, moço / O samba é quente / O samba é bom / Mexe com a gente / Sinto a cadência do samba no meu coração / Tenho como objetivo na minha paixão / Ser livre é sambar / É gente, é vida / Vem comigo cantar…”. Você sabe que esse samba, na primeira vez que eu cantei lá todo mundo cantou junto? O SESC Pompéia tava cheio, maior barato… O Elton ficou doido… E agora taí, né? Nos meus 70 anos eles querem fazer um trabalho de disco comigo, de show, lá no SESC Pompéia, agora em dezembro… esse samba tá! Eu tenho parcerias com Mano Décio da Viola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Carlos Cachaça…
S: Tudo inédito, é?
WM: Tudo inédito… Maurício Tapajós… tudo inédito… O Pedrinho Altman tá pra vir aqui… Eu vou ver se eu não me esqueço de levar o Pedrinho Altman lá no Estephanio´s… Depois tu deixa o endereço comigo! O Pedrinho Altman é filho do Elton, né? Eles são botequineiros lá… Gostam pra caramba de farra…
S: Wilson, e você acompanhou o Candeia quando o Candeia rompeu com a Portela e fundou a Quilombo, né?
WM: É. O Candeia não ficava satisfeito com a mudança, com o rumo que as escolas de samba vinham tomando… Essa Hollywood toda que tá hoje em dia, o Candeia não gostava… O Candeia era um cara muito autêntico, muito tradicional, sabe? Ele falou: “Wilson, eu vou fundar uma escola de samba. Você tá comigo?”. Eu falei: “Candeia, eu só não vou sair da Portela…”. “Não, não precisa sair da Portela, ninguém precisa sair de suas escolas. Como o Xangô tá com a gente, Elton tá com a gente, Clementina tá com a gente, fulano, beltrano, sicrano…, Jorginho Peçanha tá com a gente”. Jorginho do Império, né? Eu falei “Tá legal!”. “Vamos fundar a Quilombo.” Eu tava na época lá, fui até diretor de harmonia junto com o Jorginho Peçanha… Eu tenho a minha carteira de fundador guardada até hoje, aí, diretor de harmonia da Quilombo. O Nei Lopes era salgueirense e era também diretor da Quilombo. Eu não participei do primeiro desfile da Quilombo, eu tava com compromisso na Portela. Isso foi em 75… A fundação… Mas em 78 eu participei até de samba-enredo. Eu tava na casa do Candeia, a Tereza Raquel, filha do Solano Trindade lá de São Paulo, aquele grande poeta, ator… Ela chegou na casa do Candeia e a mãe dela morava, ou mora, em Jacarepaguá… Ela falou: “Estou com um tema aqui bom pra Quilombo, vou te mostrar… ´Ao Povo em Forma de Arte´”. Bonito tema! Aí o Candeia leu, releu, levou pra diretoria e todo mundo ouviu, viu e foi escolhido o tema de enredo pra Quilombo. Aí o Candeia me mostrou e eu disse: “Candeia, eu vou deixar o Jorginho na direção de harmonia e vou fazer esse samba com o Nei Lopes, tá bom?”.
S: Você conhecia bem o Nei?
WM: O lance foi o seguinte. Eu não conhecia o Nei muito bem. Em 74, quando eu fui produzido pelo Adelzon Alves, lá na ODEON, quando eu gravei “Mel e Mamão com Açúcar” e “O Meu Apelo”, naquele disco “Quem Samba Fica”, que era um projeto que o Adelzon tinha que lançou em 72 o João Nogueira, o Roberto Ribeiro, né? Era tipo um pau de sebo, que eles botavam cinco pessoas no disco. E ele falou pra mim que ele ia fazer outro em 74 e que eu estava, com aquelas duas músicas, que eu cantava na roda de samba que ele fazia na rádio à noite… Rádio Globo todo mundo ouvia… O “Amigo da Madrugada”… O Adelzon ele hoje em dia tá na Rádio MEC, quase ninguém vai lá ver. O Paulão produziu um disco dele agora lá na Rádio MEC com aquela turma dele. Dizem que tá muito bom o disco, eu não ouvi. Aí o que é que aconteceu? Marcou o estúdio. Naquela época ele namorava a Clara Nunes. Botou eu, Casquinha, Dona Ivone Lara, Sidnei da Conceição e o Flávio Moreira. Aconteceu o seguinte… Eu tinha aquele “Mel e Mamão com Açúcar”, que na época foi o maior barato, foi muito bem gravada… Tinha o Carlinhos do Cavaco, do conjunto “Nosso Samba”…
TP: Ele tinha uma pegada de direita!
WM: É, o maior barato! A gravação ficou excelente. Houve várias gravações, a música tocou no rádio, em tudo que era roda de samba, e o “Meu Apelo”: (cantando) “Eu vou acabar enlouquecendo…”. O Nei Lopes encontra com o Délcio Carvalho e diz: “Ô, Délcio, eu preciso conhecer o Wilson Moreira, que eu conheço ele de nome, mas pessoalmente eu não conheço…”. O Nei trabalhava com o Reginaldo Bessa, ali na Rua Santa Luzia, um negócio de jingle… Publicidade, essas coisas. O Délcio me levou lá no prédio e quando o Nei me viu plantou uma bananeira: “Puta que!…” (rindo muito, gargalhando) Rolou no chão! “Wilson Moreira aqui, que barato!”. Aí o Délcio disse: “Eu vou te apresentar um cara que bota música até em bula de remédio!”. Aí foi aquela brincadeira toda. O Nei fazia uns eventos lá na casa dele em Irajá, morava na Honório de Almeida, não sei se vocês já ouviram falar nisso, era o Festival de Ensopado…
S: É… Continua tendo!
WM: Continua tendo? (rindo) Festival de Ensopado… Tinha até jurado, provadores… Primeiro lugar! Segundo! Décimo! (rindo muito) Era um barato! Naquela época os irmãos dele estavam aí… Tinha o Zeca, que cantava pra caramba, era cantor de gafieira… O Gimbo tocava no Estudantina… tocava um trombone fora de série… A família dele é toda de músico, né? Aí eu conheci a mãe dele, Senhorinha, de oitenta e tal, na época, e ele me manda a primeira letra, “Leonel e Leonor”, lembra disso? (cantando) “Oh, Leonor / Cadê Leonel, Leonor? / Viveu pro mar / Morreu de amor” Quem canta muito isso lá no Carioca da Gema é o Marquinho China.
S: Essa é a primeira da parceria?
WM: É… Aí um dia o João de Aquino me encontra na cidade de fala assim: “Ô, Wilson, tá de bobeira hoje à tarde?”, “Tô…”, “Vou te dar meu endereço!” Ele morava na Rua Belizário Távora, em Laranjeiras, acho que é aquela rua que tem um tobogã, né? Sobe assim! Eu tinha um Fusca… (ri muito) O Fusca encrencou… E não ia de jeito nenhum! Vou deixar aqui embaixo… (rindo) Fusca 64. Bom Fusca, mas não foi! Aí eu subi e não era lá em cima, era embaixo, fui parar lá em cima! Chego lá, Roberto Ribeiro tava lá, o falecido Roberto Moura, jornalista, era uma reunião pra mostrar música. Tava só eu, João, Roberto Ribeiro tava sendo lançado naquela época como cantor… Primeiro LP que o João ia produzir do Roberto Ribeiro… Um disco bonito… O João pegou o violão e eu comecei a cantar: (cantando) “Meu cavalo baio…”, e o Roberto começou a cantar junto comigo. Essa música ele gravou junto com os Golden Boys. Eles faziam o contracanto. Essa música tem uma história muito boa… “Canta outra!”. Aí eu cantei: (cantando) “Oh Leonor / Cadê Leonel, Leonor? / Viveu pro mar / Morreu de amor…”. Aí eu falei: “Essa é a primeira música que eu fiz com o meu parceiro Nei Lopes”. Cantei toda e o Roberto começou a cantar… “Essa já tá, hein!”. O Roberto Moura depois me disse “Tá essa e tá o ´Meu Cavalo Baio´”… Eu novo no meio e já gravando logo duas com um cantor de alta qualidade! O Roberto Ribeiro, se estivesse vivo, ele… (de olhos marejados)… Puta que pariu… Aquele cara cantava muito, né, rapaz? Coitado… Ele ficou desgostoso com os problemas da vida dele, né? A vista, começou a beber muito… A vista ficou vazada, né? Ficou igual aquele cara da novela “Sinhá Moça”, de olho branco… Parece que ele tinha vergonha daquilo, botava uns óculos… A ODEON… Gravadora… não é a ODEON… qualquer gravadora… Não vendeu 100 mil, não faturou, pum! (chuta com o pé) Chutou o Milton Nascimento, Djavan, Paulinho da Viola, Dona Ivone, não quis saber. E ele ficou meio chateado com aquilo… Não faturou… Ele já bebia, já gostava, aí, ó… (faz com a mão um gesto como se estivesse bebendo) A mulher dele não controlava direito ele… De vez em quando a sobrinha dele vem aqui, com o Adauto Magalha. Ela é passista lá pro lado do Império…

EG: Wilson, você foi parceiro do Paulo Brazão também?
WM: Não. O Paulo Brazão foi o seguinte: ele assinou embaixo uma música minha. Foi o responsável pela minha ida pra Mocidade. O Paulo Brazão tinha uma sogra, que era vizinha minha, morava em Realengo, na mesma vila que eu morava. O filho dela, cunhado do Paulo, era meu amigo e falou: “Ô, Wilson, o Paulo Brazão é lá da Vila Isabel, Cabuçu, Unidos do Acaú..”, muito anos… Lá na Rua Acaú… Engenho Novo, Vila Isabel… A Clementina de Jesus morou nessa rua! Acho que era Índios do Acaú! Nos anos 40, 50… Eu era molequinho e trabalhei no Grajaú muitos anos numa estamparia, por cinco anos. E via os caras cantando os sambas do Paulo Brazão, de terreiro. O cunhado dele então me apresentou a ele. “Wilson, esse é meu cunhado, o Paulo Brazão…”, aí eu falei “Pô, muito prazer, eu sou raia miúda, eu não sei se esse negócio é samba, se eu posso cantar pro pessoal…”. “Pode cantar, sim, você me mostrou aí, cantou pra mim, é bonito pra chuchu, isso é terreiro, rapaz! Você quer ir pra onde com esse samba?”. “Olha, eu sou da Unidos da Água Branca… mas eu vou me filiar à ala de compositores da Mocidade…”. E ele: “Pode se filiar e cantar esse samba que você vai se dar bem!”. Eu mandei fazer umas letras, mostrei pro presidente da ala de compositores, o Seu Eurico, e cantei: (cantando) “Bahia me recordo com amor / Quando eu vejo alguém falar / Terra de São Salvador / Bahia berço de grandes poetas / Uma terra que é esta…”.. Pô, esqueci! Eu tenho a letra aí, futuramente eu vou mostrar a vocês direito esse samba, pro Tiaguinho… Cantei na quadra e todo mundo cantou comigo, foi meu primeiro samba de terreiro na Mocidade sem parceiro! Depois foi que apareceu o Da Volta! Mas foi um barato… Com o aval do Paulo Brazão… Ele assinou… e eu fui! Eu tinha ele como um grande amigo meu. Eu lamentei quando soube que ele foi embora. Ele era conhecido como Presidente Eterno da Vila Isabel, né? Um dos caras que tinha mais samba-enredo. Era ele, Tolito…
EG: Quantos sambas você tem com o Nei?
WM: Ih, rapaz… Pra contar é difícil… Até hoje eu tenho samba inédito com o Nei. Tem coisas guardadas que a gente ainda não mostrou a ninguém… Ele tem guardadas minhas com ele também lá na casa dele, que ele não mostrou a ninguém ainda. É difícil, né? Às vezes o artista quer um tipo de música e não é aquilo, né? Aí ele ouve… A gente acha que vai dar um tremendo pé e se engana, né?
RF: O parceiro com quem você tem mais música é ele?
WM: É com o Nei. É o mais constante.
RF: Você conheceu o Silas de Oliveira?
WM: Era muito meu amigo. Eu não bebia, né?
RF: Vocês nunca fizeram samba?
WM: Não. É a minha mágoa, essa. Eu quando fui pra Portela ele ficou muito chateado… “Poxa, Wilson… a gente se dava tão bem, em vez de você ir lá pro Império…”. O Seu Natal era primo dele! “Seu Natal me convidou pra ir pra Portela, eu tô lá! Enjoei de verde e branco, tô no azul e branco agora!”. O Silas foi um grande, era um mestre. O Silas, rapaz… eu vou te contar! Cada samba enredo dele era uma coisa de louco! O próprio Geraldo Babão, que era também meu amigo…
RF: Padeirinho, você fez samba com ele?
WM: O quê? Pô… o Padeiro era… (fica de novo emocionado)… Não fiz… Minhas maiores mágoas são essas… O Padeirinho era meu amigo pra caramba… Puxa vida…
EG: Wilson… faz aí a seleção das mágoas, então… Não ter feito samba com o Silas, com o Geraldo Babão, quem mais?
WM: Silas, Babão, Eurico Costa da Mocidade, Paulo Brazão, Padeirinho…
TP: Cartola, você fez?
WM: Não, não cheguei a fazer, mas a gente não tinha muita intimidade… Ele gostava das músicas que eu fazia. Eu fiz um show com ele em São Paulo, no Treze de Maio, nos anos setenta. O Pelão, aquele jornalista de São Paulo, foi o produtor… O Pelão segura o copo…
(Edu, que conhece o Pelão, o imita segurando o copo, Wilson morre de rir)
WM: É! Assim! O Pelão é meu amigo! Ele veio no Espírito do Chope quando eu lancei o Okolofe. Tinha uma fila pra autógrafo, imensa… (rindo muito)… O Pelão fazia uma roda de samba toda segunda-feira no Treze de Maio, lá em São Paulo, com um conjunto chamado “Lá Vai Samba”. Era o falecido Doutor no repinique, Jones Santos no cavaco, Everaldo Cruz no violão e Carlão Elegante…
S: Falecido Carlão da Unidos de Lucas…
WM: Carlão teve um derrame, ficou muito mal… Eu fui até cantar em benefício dele, lá no Lucas.
RF: Quem mais estava nesse show em São Paulo?
WM: Cartola, Mano Décio, Babaú, Jorginho do Império… Eu pegava um ônibus aqui na rodoviária, às sete da manhã, chegava lá à tardinha. A gente se apresentava lá.
RF: Quando você teve o bar, o bar era ponto de encontro da moçada?
WM: Lá em Vista Alegre?
RF: É…
WM: Ia muita gente… Beth Carvalho, Sérgio Cabral, a turma de samba do subúrbio, pessoal do Império… Mas não era tanto como lá no Sobrenatural… Sobrenatural era fora de série…
TP: Wilson, mudando um pouquinho o rumo: você não toca nenhum instrumento de cordas, né?
WM: Não. Eu tentei aprender violão, mas quando eu ia levar a sério eu tive o acidente…
TP: Como é que você consegue essa expressão toda pra tanta melodia linda?
WM: Você sabe que o Rogério Rossini era um grande maestro… Ele dizia “Wilson não aprende isso não que você tem coisa muito bonita…”
TP: Vai atrapalhar!
WM: Vai se bitolar e não vai fazer mais aquilo! O Guerra-Peixe quando eu estudava música – eu fui bolsista lá no Museu da Imagem e do Som – em 67, 68, reuniu os alunos perante alguns jornalistas de Rio, São Paulo, Minas e Brasília e falou: “Eu vou apresentar aos senhores os meus alunos. Esse é fulano, esse é sicrano…”. E me apresentou: “Esse é o Wilson Moreira, compositor de samba de morro!” (rindo) E me mandou cantar alguma coisa que eu tinha feito durante as aulas. “Como é que você faz isso sem tocar instrumento?”. Tá na minha mente, né?
EG: Você tem um processo pra compor? Como é essa história de estar na tua mente, Wilson?
WM: Você sabe o que é? É vivência, né? Você conhece a “Canção de Carreiro?”
S: Belíssima!
WM: Aquilo ali, eu vivi! (cantando) “O som das rodas daquela carroça / Faz lembrar os tempos que eu vivi na roça / Esse cheiro de fumaça / É fogão de lenha de alguém cozinhando / O ranger das rodas / Vão me acompanhando…”. Sabe… (emociona-se) Eu morei num lugar lá em Realengo que tinha uma porteira, que tinha carroça ainda, e tinha vacaria, e tinha boi mugindo… (imita o som dos bois) Eu vendi muito estrume, rapaz! Era encomendado! Estrume de vaca para adubo de horta! De cavalo não gostavam muito, não! Mas de vaca? Aquelas patacas, grandonas! Eu apanhava aquilo, botava numa lata, uma porção, rapaz! Tinha espalhado pelo meio do mato. Eu botava numa lata e vendia. Então eu passava aquilo. Quando um belo dia eu tô compondo durante uma viagem lá pra Paraíba do Sul, eu, minha mãe e meus irmãos. Eu olhei, rapaz… Aquilo era bonito! Eu lembrei de tudo, rapaz! Aí comecei assim… (cantando) “O som das rodas daquela carroça…” Veio tudo na mente! (continua) “Faz lembrar os tempos / Que eu vivi na roça / Esse cheiro de fumaça…” Quando você vai pra roça você sente o cheiro de fumaça de comida no fogão de lenha (rindo)… Eu participei com música no Prêmio VISA… Foi muito bem aplaudida… Modéstia à parte… Sabe quem gosta muito mesmo dessa música? O Adelzon Alves! O Zeca Pagodinho não gravou essa música mas canta em show. Uma vez eu fui assistir a um show dele lá no Metropolitan e ele falou no show: “Vou cantar uma música inédita aqui, que não tá no meu disco mas que eu gosto muito da música e do compositor, meu parceiro, Wilson Moreira!”. Aí o pessoal levantou pra me aplaudir. Que beleza! (rindo) Aí ele começou… cantou tudo, rapaz! O Zeca é maluco!
EG: Tá tudo ligado ao que você viveu, né?
WM: Exatamente. E eu acho que tem a ver com a origem dos meus antepassados. Meu avô tocava sanfona! Minha mãe falava que vovô saía lá pro meio da roça com a sanfona pendurada nas costas e ficava três, quatro dias…
TP: Já imaginou essa música com sanfonas?
WM: Putz!
RF: Porque tem gente que compõe como se fosse mulher…
WM: Uns tem que beber…
RF: Conta a história do “Senhora Liberdade”, Wilson!
WM: Eu trabalhava no presídio… O Nei, muito esperto… Fez a letra toda e eu musiquei. O Nei é muito esperto…
RF: Mas ele fez pensando nessa história de você trabalhar no DESIPE?
WM: Exatamente. 35 anos lá… Aposentei lá, em 92.
EG: Wilson, conta de novo a história que você contou no intervalo, durante a sopa, daquele camarada que pagou teu chope…
WM: Pois é, rapaz… Eu tava bebendo ali na Praça Onze, chope na rua, um bom chope, na época eu podia tomar um bom chope, um shcnitt… (gargalhando) Aí veio um cara e pagou o chope! Pagou e deixou outros pagos. Aí a Ângela, minha companheira, foi correndo: “Por favor, chega aqui! Você pagou aqui por que?”. E ele: “Paguei porque esse homem aí merece! Eu quando tava guardado lá em Bangu ele sempre me tratou bem, com o maior respeito, é um homem que merece respeito, nunca fez mal a ninguém lá!”. Aí ela: “Tava guardado?”. E ele: “É. Eu tava preso!”.
(todo mundo ri muito)
EG: Quem mais passou por lá, Wilson?
WM: Nelsinho Rodrigues… que foi preso político, né?
TP: Ficava junto com os presos comuns?
WM: Não. Ficava separado. E de vez em quando eu era selecionado para trabalhar no Talavera Bruce. Sabe quem eu encontrei lá? Tinha um bocado de presas políticas! Jesse Jane! Ela anda por aí, né?
S: Hoje ela é professora de História da UFRJ…
WM: Eu a via lá sempre!
EG: Wilson… Hoje, quem é quem tem a tua benção na música brasileira?
WM: Arlindinho. Zeca Pagodinho. Serginho Procópio, que é meu parceiro também. Rapaz… tanta gente, essa garotada nova que tá começando… Marquinho China… Ele gosta das coisas que eu faço…
S: Wilson… E a sua parceria com o Moacyr Luz?
WM: O Moacyr veio aqui em casa… (rindo) O Moacyr… De manhã cedo, eu tava aqui, tocou o interfone, eu fui abrir e ele já tava lá no meio da vila, procurando onde era a entrada da casa. Aí eu chamei e ele veio. E veio com uma música: “Seu Wilson eu vim aqui e trouxe uma música pra gente iniciar uma parceria…”. E eu falei: “Pô, mas eu faço música…”. E ele: “Não… Agora é ao contrário, tu vai botar letra!”. “Não tem dúvida, eu boto a letra aí…”.
S: Ah, a letra é sua?
WM: É. A letra é minha.
S: É uma das raras que você é só o letrista, né?
WM: Não… Eu tenho muita coisa…
TP: Tem uma com o Pedro Amorim…
WM: Tem. Eu tenho muita coisa… Eu faço muita coisa simultânea. Com o Paulo César Pinheiro é não dá, né? (rindo) Eu tenho umas parcerias com ele, mas a letra é dele… O Aldir, agora, eu vou mandar música pra ele…
EG: Wilson, vamos terminando… Você hoje tem a consciência de que está com o nome escrito na história da música brasileira?
WM: Graças a Deus!
EG: Como é que você gostaria de ser lembrado daqui a 50, 60, 70 anos?
WM: Eu vou durar 200 anos, pô! (gargalhando) Olha, rapaz… Eu tenho tanta coisa que eu fiz aí na música, e tem tanta gente que eu gosto… E essa juventude que gosta de mim… (se emociona) É um carinho danado, rapaz… Eu fico até… “Que é que eu vou fazer pra essa rapaziada?” (cantando) “Ô mel / Mamão com açúcar / Eu também quero encontrar / Um lugarzinho no céu…”. Vamos nessa! E olha… eu acho muito legal esse trabalho que vocês estão fazendo comigo… Eu agora nesse fim de ano eu faço 70 anos… Se der pra eu estar com todo mundo junto… Engraçado…
EG: Tem alguma bagunça programada?
WM: Aqui no Rio estão querendo fazer. Lá em São Paulo já tá mais ou menos engatilhado. O Pedrinho, filho do Elton Altman, falou: “Guarda essa data que ela é minha!”.
TP: Nós vamos todos de ônibus, hein?
WM: É mesmo, rapaz? Eles estão querendo fazer até disco lá comigo… Lá no SESC Pompéia… Vai ser um barato!
RF: Ah, Wilson! Quem te botou o apelido de Alicate?
WM: Foi o Xangô da Mangueira. Nos anos 60 eu chegava falando com a rapaziada… Vem cá, dá a mão aqui…
(Tiago estende a mão)
TP: Ai!
WM: (rindo) Aí o Xangô tinha um amigo chamado Valdomiro do Candomblé, que tinha uma mão toda arrebentada… Machucada. Eu não sabia… Eu apertei a mão dele e ele botou a mão pra trás, ficou me olhando… E o Xangô… “Esse é o Alicate, a mão dele não é mole não!”.
S: Wilson… De tudo o que você falou, duas coisas eu acho muito importantes… Você é uma memória de uma região que fez samba no Rio de Janeiro, que é muito pouco documentada, que é a região da zona oeste, Realengo, Bangu…
WM: Sabe que é mesmo? Vou te dizer um negócio… Realengo tinha muitos músicos. Eu já falei, né? Neco, o Darly Louzada, tinha uma cantora chamada Jurema, que tinha um namorado que morava em Realengo e que tocava cavaquinho chamado Caciporé! Muito bom. Aquela região era fértil!
S: E a memória é muito pouca, né?
WM: Não cortando sua boa proposta… Deixa eu falar uma coisa… Lá em Realengo tinha um clube chamado Grêmio Estudantil de Realengo, e eles faziam às segundas-feiras, nos anos 60, um sarau de jazz. Tinha o Trio Ternura… O Toco da Mocidade cantava na boate Drink, um vozeiraço! Hoje em dia é compositor da Mocidade. Até me falaram que ele anda meio doente, eu tenho que visitar ele, que ele é muito meu amigo… Um cara que é da fundação da Mocidade, com grandes sambas-enredo… Eu também me magôo de não ter samba feito com ele, sabe? Ele era cantor, naquela época, da boate Drink, tempo da bossa-nova. Ele cantou nesses cabarés, nessas boates que tinham em Copacabana, no Beco das Garrafas… Ele tem muita história bonita pra contar… Quando o Johnny Mathis vinha ao Brasil, procurava o Toco! O Toco cantava um fox… (cantarola)… cantava de um jeito que parecia o Johnny Mathis, um inglês fluente… Eu era pé-de-valsa, o Toco era crooner de um conjunto chamado Melódico Rubi. E eu ia dançar lá… (cantando) “When somebody love you…”. Toco cantava isso muito bem! Sabe que o Johnny Mathis ia a Bangu procurar o Toco?
S: Essa é ótima!!!!!
WM: O Toco cantava no Cassino Bangu… E o Johnny Mathis cantava lá! Ia lá, encontrava com o Toco… Tinha o Juarez Machado… Maestro…
S: Wilson, uma última intervenção… Você conheceu algum lugar da África?
WM: Não… É minha mágoa não ter ido lá ainda… Tenho vontade de ir lá… Pelo tipo de música que eu faço… (cantando) “Luanda, Luanda ê, ê / Luanda, Luanda, á, á…”… Bonito, né?
EG: Wilson, valeu, Wilson!

História de Realengo,complementa: Wilson Moreira tem musicas gravadas por diverso artistas (lembrem-se de olhar quem compôs a música), entre eles alguns sucesso memoraveis como: Senhora Liberdade (Wilson e Nei Lopes) com Zéze Mota / Judia de Mim -(W.M com Nei Lopes ) Zeca Pagodinho / Te segura (W.M e Neizinho) - Beth Carvalho  / Só chora quem ama - (W.M  e Zeca Pagodinho) -Arlindo Cruz / Gostoso Veneno  - (W.M e Nei Lopes) Alcione / Coisa da antiga - (W.M -Nei Lopes) Clara Nunes  entre muitas outras.
reprodução da capa do disco


Vale registrar também que participou do lendário grupo Partido em 5, que tinha Candeia, Velha, Joãozinho Pecadora, Wilson Moreira, Anézio e Casquinha...e gravou discos memoráveis nos anos 70.