quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Seu Tião, um homem simples mas marcante para quem o conheceu.

 

Sebastião da Silva Fortes
16/12/1925 - 23/10/1983


 Minha amiga de infância Sônia Maria, constantemente me desafiava cobrando para escrever sobre meu pai, sempre relutei, pois seria difícil falar de uma pessoa que se admira e idolatra não me sentia bem, mas após muitas insistências joguei a tarefa para ela. Pedi que escrevesse um texto, daí eu complementaria.

Desde já agradeço a todos que colaboraram

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Tião um Artista Anônimo

                                          por prof. Sonia Maria 

Sonia Maria 
 Numa tarde destas de quarentena veio um pouco das lembranças da minha infância aqui no Bairro de Realengo.

 Eu morava com a minha família próximo à antiga Rua Oliveira Braga, hoje Rua Prof. Carlos Wenceslau. E lá morava o senhor Sebastião da Silva Fortes, o seu Tião como era chamado por todos que o conhecia. Seu Tião morava com sua esposa Zilda e seus dois filhos, Júlio e Luiz. Nosso querido administrador do Pró Realengo, o Luiz Fortes.

Um eterno brincalhão. Martelo
 talhadeira e Serrote pra cortar o
 bolo e a esposa entrava na dele
     O Luiz herdou do seu pai o amor pelo bairro de Realengo e o gosto musical. O Júlio herdou um
pouco da sua arte, costurando as famosas calças Jeans, pois muita gente o procurava pra ele dar um jeitinho nas bainhas e na boca sino das mesmas. Enfim, ele transformava as calças jeans como ninguém. E a Dona Zilda mãe e uma mulher maravilhosa...

25 anos de casados, tem bolo?
 corto com Serrote.
   Seu Tião era muito amado pela criançada e por todos que o conhecia pelas suas historias e bom humor.

   Luiz teve a sorte de ter um pai que era um artista plástico e amado por muita gente.  O seu dom artístico era nato e nem ele e nem as pessoas que admiravam seu trabalho na época se davam conta da importância do seu Tião no bairro.

    Eu e minhas irmãs gostávamos de vê-lo costurando, criando na sua incrível e simples máquina de costura. Nela a magia acontecia... Fazia botas e bolsas de couro, fantasias, e etc...

 Ele era um apaixonado pelo Carnaval e pelas Festas Juninas. Nestas festas ele criava fantasias e

enfeites inéditos. E todos ficavam extasiados com tanta criação. Seu Tião passava muita emoção e amor em tudo que fazia.

Criava fantasias de mascarados jamais vistas e fazia fantasias em duplicata para enganar os amigos, pois achávamos que era ele que estava ali mascarado e de repente ele aparecia sem fantasia. A criançada saía correndo... Pregava cada peça!!!!

E enfeitava as festas juninas com estrelas e balões feitos por ele.

Como todo artista seu Tião era um sonhador e muito amigo das crianças. Nós gostávamos de ouvir suas histórias de balões que iriam subir tal dia e hora e ficávamos ali esperando na hora marcada de olho nos céus de Realengo. E não é que subia mesmo??? Na época os balões eram muito bem elaborados e artísticos. Lindoooos!!!!!

   É bom dizer que nesta época não era proibido soltar balões.

   E o senhor Tião ficava feliz ao ver todos admirados com suas criações e  por seu trabalho que ele fazia por prazer.

   Enfim, pra que venha mais Tiões, que resolvi trazer um pouco da história deste homem simples que viveu e amou o bairro de Realengo. E para que os leitores deste blog conheçam a história deste artista anônimo, coincidentemente pai do criador deste espaço.

   Enfim, na minha concepção e eu acredito que aqueles que o conheceram concordam comigo, que o seu Tião faz parte da história de Realengo.

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Como disse nã queria escrever sozinho, então me ocorreu de também pedir a parentes e amigos que conviveram com ele para darem suas visões.


A coisa foi longe demais, desculpem pelo tamanho do texto, e olha que não peguei depoimentos de muitos, que poderão nos comentários abaixo se expressarem.

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Arte na madeira (10 cm de altura.) 
do Luiz

Lúcia Fortes Fialho

O que eu me lembro do "Tio-Tião" é que ele era uma pessoa incrivelmente maravilhosa, como muito bom  gosto musical.
Que ele e meu pai (Alcides) se entendiam muito bem com as óperas e com as músicas clássicas. Mas confesso que manualmente devido morarmos longe, não sei muito, mas lembro das máscaras de carnaval maravilhosas, cada uma mais bonita que a outra.

Não conheci outras aptidões, mas como tio ele era MA-RA-VI-LHO-SO!!!





Delcius Ojeda Fortes

Zilda e Tião rodeados de sobrinhos
Delcius, Claudia, Lucia, Luiza e Vilma 

Falar sobre meu tio Sebastião, mas conhecido como “Tio-Tião”, lembro-me dele na infância era pequeno ainda, um cara de chinelo no pé, bermuda, camisa aberta no peito, um cara tranquilo, o semblante dele era de uma pessoa boa, nunca vi ele brabo, sempre tinha uma brincadeira um sorriso. Uma pessoa do bem. Como eu era muito pequeno e os meus pais se mudaram do Rio, eu perdi alguma coisa da minha vida do convívio com Tio-Tião mas o que lembro da minha infância é isso.

Também na sapataria, trabalhando, colocando sola em sapatos, eu ficava olhando para ele, e sempre tinha um sorriso bonito, um cara do bem.

Zebrinha adaptada posteriormente.

Aí como eu disse por conta de meu pai (Vinícius Fortes) ser da Marinha éramos sempre transferidos. Aí perdi um bom período de convivência e quando voltei a conviver com ele era a mesma pessoa, só que envelhecido aquele jeitão o mesmo jeito com chinelo e ficava conversando com ele. Ele lendo, comendo e falando comigo (acho que o almoço levava uns quarenta minutos a uma hora. Tem um cara que faz a mesma coisa, come do mesmo jeito que ele [não sei quem é?])! Também acompanhei ele nos últimos dias, estive lá no hospital é isso, só lembranças boas.

Um cara tranquilo, um cara bom em paz. Falava com todo mundo, as pessoas passavam na rua, oi Tião, bom dia Tião, com vai Tião, sempre respondia com um sorriso.

Lembro de um balão ele me disse esse vai subir e desaparecer um outro no formato de despertador...e muitos outros, uma festa, realmente o Tião marcou história em Realengo.

Um cara bom!

Por Claudia Fortes.

 Falar do "Tio Tião

Luiz, Tião e Zilda.
" é incrível.

Eu o peguei ainda quando bebia pisava no meu pé e minha mãe não deixava brigar com ele. Como aquele que fazia o melhor Carnaval, a melhor Festa Junina, era capaz de tirar a roupa do corpo pra ajudar alguém. Aquele que adotou alguém e não fez diferença do seu filho de sangue.

Aquele que me fez sorrir e quando Deus o levou eu estive lá, mas me limitei a ficar distante por respeito.

Aquele que era tão importante que sua irmã Arlete se foi na mesma data que ele se foi.

Sinto muito a sua falta e seria muito FELIZ se meus filhos o conhecessem, mas o que me conforta é saber que lá de cima ele olha por nós.


 Por Roseneide Camacho

Seu Tião!!!! Que pessoa doce, culta, de uma sabedoria que só pessoas com o coração carregado de bons sentimentos pode ter.

Quantas tardes passamos conversando no quintal da sua casa, o que falávamos, de tudo não vou

A boneca dançante resite ao tempo

lembrar, pois o tempo se encarrega de ficar com algumas de nossas lembranças. Mas lembro que falávamos das flores, da Mariápolis, dos trabalhos do grupo S.I.M. e música não podia faltar.

Ah! Seu Tião, eu só tenho a agradecer pelo imenso carinho que permeou o nosso encontro. Eu o vejo neste momento na minha memória, com um leve sorriso no rosto, que maravilha. Quantas coisas boas seu Tião deixou, depois de muito tempo me alegro ao falar dele. Seu Tião é 10!!!

Por Antonio Zuzarte

Juntos com a Familia Zuzarte :
Aparecida, Iza, Maria, Nilda
 
Falar sobre seu Sebastião Fortes é muito gratificante, pelo fato de eu também ter custado a entender que Seu Sebastião e Dona Zilda não eram meus tios biológicos, porque eu achava que sim, devido àquela convivência com a nossa família, meu avô seu João Zuzarte nosso saudoso avô, era um apego muito grande com seu pai, pra mim realmente o seu pai era filho biológico de nossa avó, eu custei a entender essa ficha demorou a cair. Depois eu comecei a puxar de minha mãe Nilda e tia Maria como eles chegaram até agente e começaram a contar que sua mãe era colega de escola de minhas tias, e graças a isso começaram a frequentar uma a casa da outra, sua mãe abraçou minha avó, minha avó abraçou sua mãe, sua me ajudou a cuidar da minha mãe que era a caçula da turma e enfim depois conheceu seu pai e dai seu pai passou a integrar a família. O nosso avô era seu pai pra tudo, chama Tião, cadê Tião, às vezes ele ficava esperando seu pai pra tomar café com ele. Elizenita, faz um café que Tião tá chegando ai! Então lembro que sentava os dois na mesa e ficavam de prosa tomando um café quentinho.  E minha mãe era bem pequena e teve a visita da imagem peregrina da Santa Nossa Senhora de Fatima de Portugal , meu avô tocava tuba na banda, meu pai pegou minha mãe colocou no ombro na corcunda para ela assistir. Ela contava isso muito feliz. Teu pai estava sempre lá puxando um som, , ajeitando sempre alguma coisa e meu avô pegava no pé do teu pai o tempo todo e ambos gostavam era aquela coisa de amor a primeira vista e pra sempre. Teu pai ficou muito triste quando o Velho Zuzarte faleceu, segundo minhas tias, Tião dizia que tinha perdido um pai, a coisa era muito forte. Eu também tive uma experiências com teu pai, minha primeira caixa acústica foi ele quem fez pra mim, eu queria botar um sonzinho melhor na vitrola e ele providenciou.


Teve as situações que o Julinho passou, lembro que os levei. Teu pai muito mal quando deixou-o internado numa casa de saúde em Jacarepaguá e eu vi teu pai de coração partido, pois teve que ficar lá um pouco e enfim a gente veio trocando ideia no carro, ele com aquele choro calado dele que você conhece melhor que ninguém. E minha avó ficou muito chateada quando teu pai faleceu, “Perdi um filho”. Falar do seu Tião é só coisa boa sempre atento, chegando junto. Até eu ficava esperando pra tomar o cafezinho da tarde. Foi uma pessoa muito querida, e quando eu falei que vc estava colhendo depoimentos elas ficaram até um pouco emocionadas., lembrar um monte de coisa que nem dá pra colocar neste relato. Ele marcou deixou muita saudade até hoje os dois, foram criados como irmãos realente parte da família. No natal estávamos sempre juntos, vovó ficava esperando ele chegar, se não chegasse, mandava chamar... enfim com certeza ele tem o Galardão dele lá tanto ele quanto sua mãe deixaram uma lembrança muito boa. Com essa família que era praticamente uma só.

Por Flávio da Costa Terzi 

Sr. Sebastião, conhecido por todos como "Seu Tião", uma fala calma e paciente, de bem com a vida, encarava a vida com simplicidade, e sabia divertir-se e aos outros, e o ápice dessa diversão era no carnaval desfilar nos blocos de sujos em Realengo com seus enormes bonecos.

Nilsa Augusta fantasiada
(arquivo pessoal)

Por Nilsa Augusta (ex vizinha)

Sr Tião sempre nos alegrou com sua arte e agora se eterniza na história de Realengo

 Na foto que cedi para esta postagem usando uma fantasia emprestada por ele e que brinquei no carnaval da Av Santa Cruz seguindo um bloco de rua)


É incrível como papai continua vivo na memória de quem o conheceu.

 Por Luiz Carlos Bastos Fortes

Sem ordem cronológica:

UNIÃO e PATERNIDADE.

Zilda e Tião.    
   Meus pais se conheceram ainda crianças nas salas de aula da escola Nicarágua, quando ele    ficava puxando as tranças de sua futura esposa. Depois de casados e gestações frustradas e trágicas, o destino trouxe uma criança até a porta, então Júlio César Bastos Fortes foi adotado em consenso e oficialmente registrado, um neguinho verdadeiro reinava no lar dos Fortes. Deu muita dor de cabeça ao velho, mas era uma missão e cumpriu da melhor forma.

E quatro anos depois vinga Luiz Carlos (eu mesmo) que deveria ser chamado segundo velha Zilda Bastos Fortes: "José Carlos", nascido pelas mãos da parteira Dona Mariinha e  tendo tia Del' Carmen de ajudante, ouviam Tio Vinícius Fortes gritar, corta com dois palmos. (Será que influencia??)


O REGISTRO: No dia seguinte saíram abraçados, alegres e sorridentes meu pai Sebastião da Silva Fortes e seu cunhado, Tio Nilo Oliveira em direção ao cartório mas no caminho encontraram um bar... alguns goles e brindes pelo neguinho nascido (era pardo, mas me chamava de "Neguinho" até a adolescência), continuaram e encontraram amigos numa birosca, mais brindes e agua que passarinho não bebe pela goela abaixo..

Julio Cesar , Zilda e Luiz
Finalmente depois de cambalearem e tropeçaram algumas vezes, chegaram ao cartório. 

E ....esqueceram o nome.... João? Antônio? Entreolharam-se - O escrivão tentou ajudar: Tinha outro nome composto?... -Os dois lembram, Carlos, mas na frente tinha outro.. ?? ...Calma aí, vou lembrar insistiu Tião.

Entre muitas variáveis uma sugestão do escrivão soou bem: Luiz Carlos... Isso mesmo,  registra aí, decreta seu Tião! Felizes retornam, certamente com algumas paradas (e agora mostrando a certidão), esvaziaram outros copos.


A NOTICIA:  Sofia, Sofia...(que era como ele chamava carinhosamente a minha mãe). Mas velha Zilda ralha com os dois,  falem baixo, pois o José tá dormindo... (eles não se deram conta) e seu Tião todo proza comunica, agora tá no papel, mostrando a certidão (já um pouco amassada) Luiz Carlos tá registrado!

Quem é Luiz Carlos??? Meu filho é José... (Por alguns dias o clima certamente foi pesado... se ela tinha feito alguma promessa pra São José, deu ruim, mas minha mãe não guardava rancor de nada.)




A INFANCIA

Com as Irmãs Nilsa, Jurema e Arlete
: Meu pai filho de Antônio e Margarida Fortes, irmão caçula de Nilsa, Arlete, Jurema e Vinicius Fortes foi criado em Santíssimo mas ainda menino veio para o Realengo, andava de trem (fazia entregas pra minha avó) e me contou que não sabia ler, esticava o pescoço pra ver as fotos nos jornais do passageiro ao lado. Um dia um deles perguntou alto pra todo mundo ouvir o quê estava escrito? ...O menino Tião, não soube responder... Mas doeu lá no fundo, pois dai em diante decidiu não passar essa vergonha novamente.
O menino Tião
em Santissimo
.


Aprendeu e lia de tudo, aprendi a gostar de ler com ele, eram gibis, livros, histórias de "faroeste" , comprávamos ou trocávamos 3/1 nas feiras de Realengo, um outro tio o Rubens Lima , nos dava depois de ler, seus exemplares da "Seleções  Read Digest" da qual era assinante e com essa leitura estávamos sempre atualizados com o mundo, mesmo ainda não tendo TV. Lembro que lá em casa tinha um importante livro e que sempre insistia para consultarmos era um dicionário (ele chamava de pai dos burros).



Tinha a mão boa para plantas.   
 
Meu pai sempre me contou de um filme sobre um pescador e um dia achou o livro que contava esta historia e me deu de presente. “ O Velho e o Mar de Ernest Heminghway“ e mantive a trtadição e também dei ao seu neto Pedro Laport Fortes o  mesmo livro.

Amava esportes, mas não tínhamos TV ainda, mas os amigos, (e como ele tinha amigos) deixavam ele assistir sua paixão, o "boxe", entendia, vibrava, assistíamos na casa de dona Deolinda  , pertinho do colégio Souza Lima, voltávamos tarde da noite...ele vinha feliz, também era fã de corridas de carros assistíamos F1 torcendo pro Fittipaldi, depois Piquet, e um tempo depois (quando a TV não passava só o rádio transmitia - era paixão!) ouvimos que um moleque chamado Airton, estava dando show nas categorias de base e certamente iria longe.


Religiosidade:
Era Católico fervoroso, membro dos "Congregados Marianos", mas numa procissão de rua, ele estava carregando o andor de NSa. Senhora da Conceição e uma chuva despencou de repente, não ficou um fiel pra contar a história até o Padre foi pra baixo da marquise. Meu pai bradou: Povo sem fé... Daí em diante era a igreja lá e ele aqui.... Mas mesmo deixando de ser praticante, anos depois cultivou uma grande amizade com o padre Lessa e com as freiras, as quais se utilizavam dos seus serviços diversificados. Lembro que tínhamos um quadro lindo em casa de São Jorge, por dentro tinha uma luz que era acesa a noite, Lindo...lembro também que ele disse ter visto um milagre atrás do altar da Igreja de Santana (no centro do Rio). ...eu tenho fortes razões para acreditar.


LIÇÕES DIÁRIAS: Papai era cativante, não sei explicar... Incrível nada o aborrecia, eu era pequenino caminhávamos de mãos dadas, e se ele tropeçava (ou martelasse o dedo) dava graças a Deus. Eu arregalava os olhos de espanto, um dia perguntei porquê agradece?

- Agradeço pois tenho pé para dar topada, agradeço por não estar numa cadeira de rodas ou de muletas. Eles sim, não podem tropeçar. Então me sinto abençoado (umas das lições que carrego até hoje comigo). "Pequenas coisas que parecem ser banais devem ser valorizadas."

Meu pai não era de nos bater, era adepto do dialogo mas mantia atrás da porta um chicote (assustador) confeccionado por ele mesmo, que se eu senti na pele foi no máximo duas vezes.




Adorava futebol torcedor do América, jogava bem e dizia ser bom goleiro, mas só "calibrado", chegou a fazer teste num grande clube (não lembro qual) mas sem poder tomar uma branquinha, não pegou nada.

Esse vício, junto com o cigarro (contribuíram para sua partida para outros mundos) que começou ainda criança pois adorava balões, fazia de todos os tipos, e para acender as buchas, gastava muitos fósforos, e com o cigarro na boca acendia mais rapidamente (chegou a fumar 4 maços por dia). Trabalhava num depósito de bebidas da Antártica ao lado de nossa casa, mas uma complicação no coração obrigou a se aposentar por "invalidez". A respeito dos balões ficou alguns anos sem fazer ou solta-los, estava triste alguém próximo espalhou que um balão feito por ele no formato de caixão funerário (com duas buchas) foi agouro pois dias depois sua mãe Margarida vem a falecer num acidente, pisoteada por vários cavalos no bairro de Campo Grande, (ela ia levar o meu irmão Júlio, mas não era a hora dele) demorou a se recuperar confessou um dia (mas nao fez mais caixões). Gostava realmente de soltar balões com hora marcada avisava antes, tal hora vou soltar um balão relógio com hora marcada (três horas) lembro de um na copa de 1970, na hora que ia começar o jogo do Brasil x Itália, afirmava, ele vai voar baixo e cair longe (estudava a bucha com tal precisão que ela não queimava rápido nem forte.) Seus balões com diversos formatos eram facilmente reconhecidos.

 

Bola da copa de 50
MUITAS HABILIDADES: Essa aposentadoria precoce, lhe proporcionou tempo para suas múltiplas habilidades, .batiam no portão: Seu Tião preciso podar uma árvore, ele ia,... meu ferro de passar está ruim, ele resolvia, também era estofador (o que lhe garantia uma renda melhor para casa) costurava com precisão e ensinou a profissão ao meu irmão, no quartel aprendeu a profissão de sapateiro, confeccionava também bolas de futebol (a mão), tinha orgulho de dizer que fez bolas pra Copa de 50,  para a fabrica SUPERBALL, mas não impediu que minha mãe trabalhasse fora, e também se aposentar feliz da vida.

Os vizinhos sempre pediam para ele ajudar seus filhos para confeccionar maquetes para os trabalhos escolares, e eram elaboradas ele não se contentava com o simples. As meninas lhe chamavam de tio antes disso virar moda. E como ele tinha sobrinhas. Tratava como filhas pois sempre quis ter uma e não foi agraciado.


Piranhão no carnaval eu com a boneca dançante

Meus brinquedos a grande maioria eram confeccionados por ele,  e eu com a boneca dançantecarrinhos de rolimã, pião, patinete, futebol de pregos, petecas, skate (um dos primeiros da Zona Oeste, viu numa revista e fez igualzinho), pipas ele fazia de todos os tamanhos e formatos. Pipas que cabiam na palma da mão ou outras do seu tamanho com rabos de panos. Decorava festas juninas, fazia caricatura em cocos secos, esculpia em pedaços de madeira, bolava alegorias ou fantasias exóticas amava carnaval, o normal não lhe atraia.

Velho Tião não teve estudos ou diplomas, aprendeu tudo com a vida, grande observador se arriscava em várias empreitadas e não me recordo de reclamações de um serviço mal feito. Era um pai presente pois aposentado tinha tempo livre pra nós, jogava bola conosco, soltava pipa, ensinava jogos e brincadeiras nas ruas, fazia perna de pau onde víamos todos do alto, telefones de lata, costurava panos compridos enfiava serragem e um arame que de noite na penumbra parecia uma cobra...ah,ah como assustamos muita gente uma vez ganhou uma máquina de filmes manual que passava a noite para alegria da criançada. Na casa dos fundos morava minha prima Claudia Fortes, que ganhou um balanço só seu dentro da varanda.


Bonecão no Bloco das Piranhas 
Bloco das Piranhas: Quando uns sobrinhos postiços, (Jõao, Leoncio, Leó e Tuquinha todos “da Matta”) estavam fundando e organizando um bloco de Carnaval no bairro, eles pediram para ele criar algo para ir à frente do bloco. Era o bloco das Piranhas de Realengo que teve o primeiro "Bonecão de Carnaval" claro que ele deve ter visto em algum lugar só adaptou com as bonecas de peitos amostra (fez duas). Uma loja chamada "Bazar da Moda" encomendou (para fazer marketing), também um bonecão, mas como Papai Noel, imaginem um bom velhinho de três metros de altura pelas ruas de Realengo, era alegria da criançada.

Obs: Essas armações eram feitas de varetas de bambu e arames, e duraram bastante tempo, e posteriormente eu adaptei com outros personagens.

 

Minha mãe visivelmente estava mais feliz com seu homem sóbrio.

 Os vícios foram largados, o cigarro tardiamente, mas o alcoolismo eu ainda era criança, voltávamos de um passeio de Sepetiba e no ônibus minha mãe sentou comigo ao colo, e meu irmão, sentou ao lado. Mamãe pediu: Dê o lugar pro seu pai. - E Júlio retrucou "Eu não mandei ele beber". Todos ouviram, daquele dia em diante meu pai nunca mais bebeu. Entrou pro AA, colecionava as fichas coloridas o seu orgulho, cada côr era um ano, etapas conquistadas, se sentia um vencedor. Tinha tamanha segurança que chegou a trabalhar num Bar na esquina de casa do "Seu Nestor". E resistia a tentação, fazia caricaturas em coco e dentro colocava aguardente os clientes amavam sua arte e saboreavam o mel.


Tinha uma capacidade de desenhar Incrível, adorava música, de todos os ritmos, bolero, forro, samba, samba de breque e o pop, etc, adorava cantar ou assobiar no chuveiro, e hoje eu analiso, como ele com tão pouco estudo ou cultura, ouvia óperas, músicas clássicas e parecia entender e muito... como? eu não sei. Ganhamos do tio Alcides Fialho uma vitrola num móvel enorme, pois comprou uma menor, o radio captava até estações estrangeiras. Assistia domingos pela manhã na TV, concertos para a juventude, comprava discos de óperas e orquestras, anos depois meu irmão trouxe outros sons para casa, ampliou seu gosto musical que já era eclético, ouvíamos de tudo em casa do Clássico ao Rock, uma democracia.

letra do Dudu - Mais que um Amigo


Um de seus últimos trabalhos foi criar cenários e adereços para apresentações teatrais do grupo S.I.M e recebeu uma bela  homenagem póstuma do professor Dudu, que compôs (na missa de sétimo dia) uma versão de "Don't Cry For Me Argentina" da peça Evita e que virou " Mais que um amigo". Nós do grupo S.I.M. tínhamos um espetáculo na semana seguinte com ingressos vendidos antecipadamente e o teatro não tinha mais datas livres para remarcamos. Foi uma noite de muita emoção.  a letra está ao lado.




Seu-Tião brincava dizendo: Pode me chamar de De Millus o amigo do peito

Um ser de luz, obrigado por tudo.

 

abaixo um escrito meu quase um mês apos sua partida.

fragmentos sobre meu pai

Pequenas lembranças

# Me disse que fez uma fantasia de caveira só pra sair de noite, os ossos eram pintados com tinta florescente, imaginem seu efeito a noite.

# Fazia doces e sucos deliciosos.

# Gostava de bailes do Grêmio, onde era sócio e conselheiro. Quando fiz 14 anos começou a me levar junto, (menor só acompanhado eu era alto enganava o juizado) assistimos, Jamelão, Orquestra Tabajara, Copa 7, e os conjuntos de covers de sucessos estrangeiros: The Fevers, Os Famks (que viraram Roupa Nova), os Pholhas, Aeroporto, Casanova (a cronner depois ficou famosa "Rosana" e muitos outros.

# quando podia($), comprávamos discos no centro ou em Madureira, até fazer um serviço de carpintaria numa nova loja de discos em Realengo e que depois veio a ser também meu primeiro emprego.(acredito que ele deu uma força)

# prestou serviços diversos ao Dr. Manoel Gomes (médico referência no bairro na época), tanto no consultório quanto na sua casa e  com o qual tinha boa amizade

E por fim. Em seu velório eu e minha prima Luíza Fialho, conversamos e concordarmos que um ser alegre como ele foi, não merecia uma despedida triste. Todos ao redor concordamos, e decidimos fazer um brinde em homenagem agradecendo por termos tido o privilégio da sua convivência. E assim é feito com todos nossos parentes que partem.

Fim.





















9 comentários:

  1. Caramba que história linda. Agora sei de quem você herdou essas suas características tão positivas. Gostaria de ter conhecido o Seu Tião! Bela homenagem! Só não encontrei uma explicação de como ele torcendo pelo América você não acompanhou a escolha. Embora o Pedro tenha acompanhado a sua. Parabéns pela belace merecida homenagem para o Seu Tião!

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    1. Ninguém influenciou ninguém..ele americano, mãe flamenguista, irmão vascaíno. Pedro foi influenciado por outros.

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  2. Pelo que me consta, a idéia da F.A.I. surgiu no enterro do tio, né?

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    1. O embrião sim.. não tínhamos ideia do que viria a ser, nossos encontros. Mas ali conversamos que tínhamos de nós ver mais.

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  3. Sou CARLOS MURILO filho do Murilo Pereira da Fonseca e Jupira Prata da Fonseca, neto de Emygdio Mariano da Fonseca, que moravam na avenida Sta Cruz em frente ao Grêmio Recreativo. Meu pai, grande amigo dele, foi ganhar a vida em Brasilia, virou policial federal, e nossas férias escolares eram sempre no Rio de Janeiro, em Realengo... sempre íamos visitar o Sr Tião - Tiãozinho, como meu pai o chamava. Sempre queríamos comprar pipas, mas ele sempre nos dava, não nos cobrava, e ainda, me dava o carretel com linha, moía o vidro e preparava o cerol com a cola de madeira. Eu ficava horas vendo a habilidade dele nas pipas e balões. Certa vez, não tínhamos vidros e subi no telhado da casa baldia ao lado e obviamente, aos 10 anos, desabei com tudo, telhado e vidro, por sorte, quebrei apenas o braço, isso foi em 1971... que saudades do Tiãozinho, ele fez a minha infância ter alegria e valer a pena. Obrigado Senhor Jesus, pelo privilégio de conhecê-lo, ser amado por ele e pelo meu pai, que agora a menos de 6 meses, voltou para Deus....com certeza soltará pipas com o Tiãozinho no céu. Gratidão a Deus por tudo isso...
    Hoje moramos ainda em Brasília, sou neto do vô Emygdio e vó Salete, sobrinho do Mauro, Márcio, Marilene, Milne e
    Sérgio. Meu pai na glória com o Senhor Jesus. Obrigado por me trazer tão boas lembranças....

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  4. CARLITO OLIVER
    Pessoa especial. Grande caráter. Tive o prazer de conhecer. Um grande abraço aos familiares.

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  5. JANETE DIAS MACHADO
    Gostei muito de ler a história sobre seu pai. Conheci sua mãe na casa da família Zuzarte.

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  6. ERALDO NASCIMENTO
    Tião fomos muito amigos ele fazia as reformas do laboratório onde trabalhei era o cara pra qualquer obra da casa do Dr Nezinho pegava os bonecos dele é saia pelo carnaval a última vez que nos vimos foi no hospital lá em laranjeira se não me engano quando os funcionários do laboratório fomos visita lo pois logo depois veio a falecer o cara tinha uma ética da porra pessoa que sinto falta!

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  7. RICARDO ALMEIDA
    Pessoa do bem, gente muito boa, tive o prazer de conhecer e conviver.

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